Maués, no interior do Amazonas, é conhecida em todo o país pela forte ligação com o guaraná. A cidade, localizada às margens dos rios Maués-Açu e Paraná do Urariá, construiu sua identidade a partir do cultivo, do beneficiamento e das tradições associadas ao fruto amazônico.
Durante décadas, o município foi chamado de Terra do Guaraná. Em setembro de 2025, essa relação ganhou reconhecimento oficial em âmbito nacional: a Lei nº 15.216 conferiu a Maués o título de Capital Nacional do Guaraná. A norma foi sancionada em 22 de setembro e publicada no Diário Oficial da União em 23 de setembro daquele ano. Fonte: Presidência da República.
Uma história ligada aos povos originários
A história do guaraná em Maués antecede a formação do município e está relacionada aos conhecimentos dos povos indígenas que vivem na região. Entre eles estão os Sateré-Mawé, tradicionalmente associados ao cultivo e ao uso do fruto.
O guaraná é chamado de waranã na língua Sateré-Mawé. Para esse povo, a planta não representa apenas uma fonte de alimento ou de renda. Ela está ligada à cosmologia, às práticas tradicionais, à memória coletiva e à relação com a floresta. O conhecimento sobre o plantio, a colheita e o preparo do guaraná foi transmitido entre gerações.
O fruto nasce em uma trepadeira amazônica conhecida cientificamente como Paullinia cupana. Os povos originários desenvolveram técnicas para transformar a planta silvestre em cultivo regular e aproveitar suas sementes. O processo tradicional inclui a secagem e a transformação do fruto em bastão ou em pó, formas utilizadas em bebidas e preparações locais.
A presença do guaraná nos relatos históricos da região é antiga. Registros de missionários do período colonial mencionam o uso do fruto por povos indígenas do Baixo Amazonas. As descrições destacavam o preparo das sementes e o consumo em água, além da importância atribuída à bebida durante atividades de caça, deslocamento e trabalho.
Da ocupação colonial à formação de Maués
A região onde está Maués foi ocupada por diferentes povos indígenas antes da chegada dos colonizadores. Com o avanço das missões religiosas e das expedições portuguesas pela Amazônia, o território passou a integrar as rotas de circulação entre os rios Amazonas, Madeira, Tapajós e seus afluentes.
O núcleo que deu origem ao município também aparece associado à antiga vila de Luséa. A criação administrativa de Maués ocorreu no século 19, em um período de reorganização política da Província do Amazonas. Segundo registros reunidos pela Associação Amazonense de Municípios, o município foi criado pela Lei Provincial nº 96, de 25 de junho de 1833. Fonte: Associação Amazonense de Municípios.
Ao longo do tempo, a sede passou por mudanças de denominação e organização administrativa até consolidar o nome Maués. A formação da cidade esteve ligada às atividades de navegação, ao comércio regional, à agricultura e à exploração de produtos da floresta.
O município também foi afetado pelos conflitos políticos e sociais que marcaram o Amazonas no século 19. A região participou do contexto da Cabanagem, movimento ocorrido entre 1835 e 1840 em diferentes áreas da Amazônia. A presença indígena e as disputas pelo controle de rotas e povoados fizeram parte desse processo histórico.
O guaraná como símbolo de identidade
Em Maués, o guaraná passou a ocupar um espaço que vai além da produção agrícola. O fruto está presente em histórias, festas, artesanato, bebidas, rituais, atividades comerciais e símbolos oficiais do município.
O Plano Municipal de Cultura registra que o Guaraná de Maués e a Festa do Guaraná são reconhecidos pela legislação local como elementos representativos da cultura, da história e da economia do município. O documento também associa a identidade de Maués às tradições dos povos Sateré-Mawé. Fonte: Plano Municipal de Cultura de Maués.
O fruto também se tornou patrimônio cultural do Amazonas. A Lei estadual nº 4.294, de 18 de janeiro de 2016, reconheceu como patrimônio cultural material e imaterial do estado o guaraná produzido em Maués, além de suas lendas, mitos e costumes. Fonte: Legislação do Amazonas.
Esse reconhecimento considera que a importância do guaraná não está apenas no produto final. O patrimônio envolve os modos de fazer, as narrativas indígenas, as técnicas de cultivo, o uso tradicional e a relação entre as comunidades e o território.
Produção, trabalho e economia local
O cultivo do guaraná é realizado por agricultores familiares, comunidades rurais e produtores indígenas. As plantações estão distribuídas em áreas próximas aos rios e em propriedades que mantêm práticas agrícolas adaptadas às condições da floresta amazônica.
Depois da colheita, os frutos passam por etapas de seleção, lavagem, torra e beneficiamento. As sementes podem ser transformadas em bastões, pó, extratos e outros produtos. Em comunidades tradicionais, o bastão de guaraná continua sendo ralado e dissolvido em água, conforme métodos transmitidos entre gerações.
Além do consumo local, o guaraná de Maués abastece mercados de outras cidades e participa de cadeias industriais que utilizam o fruto em bebidas, alimentos, suplementos e produtos energéticos. As sementes contêm cafeína, substância responsável pelo efeito estimulante associado ao guaraná.
Uma reportagem da TV Brasil descreveu a produção do guaraná como uma das principais fontes de renda do município e mostrou o trabalho de comunidades Sateré-Mawé envolvidas no cultivo e no beneficiamento. O material também registrou a comercialização de bastões e pó em feiras de Manaus e Belém. Fonte: TV Brasil.
A importância econômica do produto, no entanto, não elimina os desafios enfrentados pelos produtores. A produção depende das condições climáticas, do acesso às comunidades, da qualidade das mudas, do transporte fluvial e da capacidade de comercialização. A valorização do guaraná passa, portanto, pela melhoria das condições de trabalho e pela preservação dos conhecimentos tradicionais.
A Festa do Guaraná
A Festa do Guaraná é uma das principais manifestações culturais de Maués. O evento reúne apresentações musicais, atividades culturais, celebrações comunitárias e ações relacionadas à cadeia produtiva do fruto.
A festa também tem relação com o ciclo agrícola. O período do evento coincide com a época em que os frutos amadurecem e ficam prontos para a coleta. A abertura da cápsula revela as sementes envolvidas por uma polpa clara, uma característica visual que ajudou a alimentar narrativas populares sobre o guaraná.
Ao longo dos anos, a programação passou a atrair visitantes de outras partes do Amazonas e de diferentes estados brasileiros. Além de divulgar o município, o evento reforça a memória sobre os povos originários e apresenta produtos derivados do guaraná.
O festival também evidencia como a cultura local combina tradições indígenas, manifestações populares, música, culinária e atividades econômicas. Em Maués, a festa não se limita à promoção de uma commodity: ela funciona como espaço de afirmação da identidade municipal.
A lenda de origem do guaraná
Entre os relatos mais conhecidos está a lenda Sateré-Mawé sobre a origem do guaraná. Existem diferentes versões da narrativa, mas muitas apresentam a história de uma criança cuja morte dá origem à planta. Os olhos da criança seriam associados às sementes do guaraná, que passam a oferecer força e benefícios à comunidade.
A lenda é uma narrativa cultural e não uma explicação botânica sobre a origem da espécie. Seu valor está no modo como expressa a visão de mundo, os vínculos familiares, a relação com a terra e o papel do guaraná na vida do povo Sateré-Mawé.
Essa tradição ajuda a explicar por que o fruto ocupa uma posição tão central no imaginário de Maués. O guaraná aparece como alimento, remédio tradicional, símbolo de proteção, elemento de troca e marca de pertencimento.
O reconhecimento como Capital Nacional do Guaraná
O título de Capital Nacional do Guaraná foi proposto no Projeto de Lei nº 2.913/2022, apresentado pelo deputado federal Sidney Leite. A proposta avançou no Congresso Nacional e deu origem à Lei nº 15.216/2025.
A lei tem caráter honorífico e reconhece oficialmente uma identidade que já fazia parte da vida social e econômica de Maués. O texto legal é direto: confere ao município amazonense o título de Capital Nacional do Guaraná e determina que a norma entre em vigor na data de sua publicação. Fonte: Senado Federal.
O reconhecimento nacional também amplia a visibilidade de uma cadeia produtiva construída por agricultores, comunidades indígenas, comerciantes, pesquisadores e trabalhadores do beneficiamento. Ao mesmo tempo, reforça a responsabilidade de preservar o patrimônio cultural associado ao fruto e de garantir que a valorização econômica alcance as comunidades produtoras.
Mais que uma cidade conhecida pelo fruto
Maués ficou conhecida nacionalmente pelo guaraná porque conseguiu reunir, em torno da planta, história, cultura, economia e identidade. A cidade não é apenas um centro produtor: é parte de um território onde o fruto está relacionado aos conhecimentos dos povos originários e à ocupação histórica da Amazônia.
O título oficial concedido em 2025 formalizou uma reputação construída ao longo de gerações. Para compreender Maués, é necessário olhar para o guaraná como produto agrícola, patrimônio cultural e expressão da relação entre as comunidades e a floresta.
É essa combinação que sustenta o nome Terra do Guaraná e explica por que Maués passou a ser reconhecida legalmente como a Capital Nacional do Guaraná.