A história de Barcelos, no Amazonas, está ligada à ocupação do médio Rio Negro, à formação administrativa da Amazônia portuguesa e à relação permanente entre as comunidades e os rios. Antes de se tornar conhecida internacionalmente pela pesca esportiva, a cidade foi missão religiosa, vila colonial e sede da Capitania de São José do Rio Negro.
Localizado na margem direita do Rio Negro, o município reúne uma extensa rede de rios, lagos, igarapés e ilhas. Esse ambiente sustenta atividades tradicionais, como a pesca artesanal e a captura de peixes ornamentais, e também criou as condições para o desenvolvimento do turismo de pesca, principalmente voltado ao tucunaré-açu.
Hoje, Barcelos é apresentada pelos órgãos de turismo como um dos principais destinos brasileiros para a pesca esportiva. A atividade ganhou projeção por causa da presença de grandes tucunarés em ambientes naturais e pela paisagem do arquipélago de Mariuá, conjunto de ilhas e canais situado na região do município. (turismo.barcelos.am.gov.br)
Da Missão de Mariuá à formação de Barcelos
A origem histórica de Barcelos remonta a 1728, quando o carmelita Frei Matias de São Boaventura fundou a Missão de Nossa Senhora da Conceição de Mariuá. A missão começou com uma estrutura simples, descrita pela administração municipal como uma capela de palha dedicada à Virgem Maria.
O estabelecimento da missão fazia parte do processo de ocupação colonial dos rios amazônicos. Nesse período, ordens religiosas atuavam na formação de aldeamentos e na catequese de populações indígenas, enquanto a Coroa portuguesa buscava ampliar o controle territorial sobre a região do Rio Negro.
O nome Mariuá está associado à geografia local e à presença dos grandes cursos d’água. A missão cresceu em importância por sua posição no médio Rio Negro e passou a desempenhar funções religiosas, administrativas e comerciais em uma área marcada pelas longas distâncias e pela dependência do transporte fluvial.
Em 6 de maio de 1758, a antiga aldeia foi elevada à condição de vila e recebeu o nome de Barcelos. A data é celebrada atualmente como o aniversário do município. A elevação ocorreu no contexto das mudanças administrativas promovidas pela Coroa portuguesa na Amazônia, que reorganizaram antigas missões e aldeamentos. (turismo.barcelos.am.gov.br)
Barcelos como sede da Capitania de São José do Rio Negro
A transformação de Mariuá em Vila de Barcelos teve uma consequência decisiva para a história regional: o município passou a ser sede da Capitania de São José do Rio Negro, unidade administrativa que correspondeu, em grande parte, ao território do atual Amazonas.
Por esse motivo, Barcelos é frequentemente identificada como a primeira capital do Amazonas. A formulação exige uma precisão histórica: no século XVIII, ainda não existia a Província do Amazonas com a configuração posterior. Barcelos era a sede da capitania colonial do Rio Negro, que mais tarde daria origem ao território amazonense.
A escolha de Barcelos como centro administrativo estava relacionada à posição da vila no médio Rio Negro. A localidade funcionava como ponto de articulação entre missões, povoados e áreas de circulação de produtos amazônicos. Naquele período, o deslocamento dependia essencialmente de canoas e embarcações, e a rede fluvial definia o alcance do governo.
A sede administrativa, no entanto, não permaneceu definitivamente em Barcelos. Ao longo do fim do século XVIII e do início do século XIX, houve transferências para o Lugar da Barra do Rio Negro, povoado que se desenvolveu na área da atual Manaus. A localização próxima à confluência dos rios Negro e Solimões era considerada mais estratégica para a defesa, o comércio e a comunicação com outras áreas da capitania.
A mudança marcou a perda da função de capital, mas não eliminou a importância histórica de Barcelos. A cidade continuou como referência do médio Rio Negro e preservou elementos de sua formação colonial. A própria Prefeitura de Manaus reconhece que a antiga missão de Mariuá foi escolhida como capital antes da transferência da sede para o Lugar da Barra. (manaus.am.gov.br)
O município depois da transferência da capital
Com a consolidação de Manaus como centro político e econômico do Amazonas, Barcelos passou a ter uma trajetória mais diretamente associada à economia regional e às atividades desenvolvidas ao longo dos rios. A distância em relação à capital e as dificuldades de transporte limitaram a integração com os grandes centros, mas também contribuíram para a preservação de modos de vida ribeirinhos.
A cidade manteve sua importância como ponto de circulação no Rio Negro e como porta de acesso a comunidades, áreas de pesca e regiões de floresta. A economia local passou a combinar pesca, extrativismo, agricultura de pequena escala, comércio e serviços públicos.
Em 1938, Barcelos recebeu o status de cidade por meio de legislação estadual. A elevação ocorreu em um período de reorganização administrativa dos municípios brasileiros e representou uma nova etapa institucional para a localidade, que já acumulava mais de dois séculos de história desde a fundação da missão de Mariuá.
O patrimônio histórico de Barcelos inclui referências à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e ao antigo prédio da prefeitura. Segundo o portal municipal de turismo, o edifício da prefeitura foi construído em 1934, antes de a vila ser elevada à categoria de cidade. Esses espaços ajudam a preservar a memória da formação urbana do município. (turismo.barcelos.am.gov.br)
A tradição dos peixes ornamentais
Antes da fama internacional associada ao tucunaré, Barcelos já era conhecida pela pesca de peixes ornamentais. A atividade ganhou força especialmente a partir da segunda metade do século XX e passou a integrar a identidade econômica e cultural do município.
Entre as espécies mais associadas à região estão o cardinal e o acará-disco. A captura e a comercialização desses peixes envolvem conhecimentos transmitidos entre gerações, além de uma rede de pescadores, comerciantes e exportadores. Os trabalhadores que atuam nessa atividade são conhecidos localmente como piabeiros.
Na década de 1990, Barcelos chegou a ser apontada como a maior exportadora brasileira de peixes ornamentais. A atividade contribuiu para projetar o nome do município para além do Amazonas e permanece presente em eventos culturais, como o Festival do Peixe Ornamental de Barcelos.
O festival também funciona como espaço de valorização da cultura dos piabeiros e da relação entre a população e os rios. A tradição dos peixes ornamentais diferencia Barcelos de outros destinos amazônicos voltados principalmente à pesca de espécies para consumo ou ao turismo de natureza. (turismo.barcelos.am.gov.br)
Como a pesca esportiva transformou a imagem da cidade
A pesca esportiva se consolidou como uma das principais atividades turísticas de Barcelos por causa das características dos rios do médio Rio Negro e da presença do tucunaré, especialmente o tucunaré-açu, espécie muito procurada por pescadores.
Na modalidade esportiva, a captura costuma ser associada ao sistema de pesque e solte. O atrativo está no tamanho, na força e no comportamento do peixe, além da experiência de navegar por rios, lagos e áreas de floresta inundada. A atividade também movimenta operadores turísticos, piloteiros, hospedagens, alimentação, transporte e comércio local.
O município se tornou conhecido como destino internacional da pesca esportiva. De acordo com o portal oficial de turismo de Barcelos, a temporada ocorre anualmente entre os meses de setembro e fevereiro. Materiais da Amazonastur também destacam o município como um dos principais destinos brasileiros do segmento e apontam o tucunaré-açu como a espécie mais cobiçada na região. (turismo.barcelos.am.gov.br)
A pesca esportiva também ampliou a visibilidade do arquipélago de Mariuá. Considerado um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo, o conjunto reúne mais de 1.400 ilhas, segundo o portal municipal de turismo. Seus lagos, paranás e igarapés formam ambientes utilizados durante a temporada de pesca e atraem visitantes brasileiros e estrangeiros.
A presença do arquipélago ajuda a explicar por que a pesca esportiva em Barcelos não se resume à captura do peixe. O destino combina a atividade esportiva com navegação, observação da paisagem, contato com comunidades e permanência em barcos-hotéis, pousadas e estruturas de hospedagem voltadas ao turismo de natureza.
Pesca e conservação ambiental
O crescimento da pesca esportiva aumentou a necessidade de regras para proteger os estoques pesqueiros e organizar o uso dos rios. No Amazonas, normas estaduais estabelecem restrições à captura, ao transporte e à comercialização de espécies de tucunaré, com o objetivo de conservar os peixes e fomentar a pesca amadora e esportiva.
Em Barcelos, acordos de pesca e normas locais também tratam de métodos permitidos, limites de captura e proteção de áreas utilizadas por comunidades e operadores turísticos. Entre as regras registradas em documentos oficiais estão a proibição da pesca comercial de tucunaré e a exigência de cuidados com os resíduos produzidos pelas operações de pesca esportiva.
Em 2026, a Prefeitura de Barcelos informou ter reforçado ações de fiscalização e orientação contra a pesca irregular, incluindo abordagens em rios e comunidades. A administração municipal afirmou que a captura de tucunaré para fins comerciais é considerada irregular no território do município. (legisla.imprensaoficial.am.gov.br)
A preservação é uma questão central para o futuro da atividade. O turismo depende da manutenção dos peixes em seu ambiente natural, enquanto as comunidades dependem dos recursos dos rios para alimentação, renda e deslocamento. Por isso, o ordenamento pesqueiro precisa conciliar a pesca de subsistência, a pesca comercial autorizada, a pesca esportiva e a conservação ambiental.
Um município marcado pelos rios
A história de Barcelos não pode ser separada do Rio Negro. O rio foi caminho para missões, comércio, administração pública e deslocamentos cotidianos. Também é a base das atividades econômicas que definem a identidade contemporânea do município.
O passado de sede da Capitania de São José do Rio Negro, a tradição dos peixes ornamentais e a expansão da pesca esportiva formam etapas diferentes de uma mesma relação com o território. Em todas elas, os rios aparecem como vias de circulação, fontes de alimento, espaços de trabalho e paisagens culturais.
Conhecer a história de Barcelos significa compreender como uma antiga missão do século XVIII se transformou em município amazônico reconhecido pela biodiversidade e pelo turismo. A cidade preserva a memória de sua importância administrativa e, ao mesmo tempo, enfrenta o desafio de garantir que a exploração dos recursos naturais permaneça compatível com a vida das comunidades e com a conservação da floresta.

