Nhamundá é um município do Amazonas onde a história se mistura à geografia. Localizada na região do Baixo Amazonas, a cidade se desenvolveu às margens do rio que leva o mesmo nome e mantém uma relação estreita com as águas, as comunidades rurais, a pesca e as tradições indígenas e ribeirinhas.
Conhecida também como Ilha das Icamiabas, Nhamundá reúne praias de água doce, ilhas, lagos, áreas de floresta, cachoeiras e trechos de rio que atravessam uma paisagem marcada pela diversidade amazônica. A identidade local, no entanto, não se resume aos atrativos naturais: ela também é formada por diferentes etapas de ocupação, pela memória dos povos originários e pela autonomia política conquistada em meados do século 20.
Onde fica Nhamundá
Nhamundá está situada no interior do Amazonas, na região do Baixo Amazonas, a cerca de 375 quilômetros de Manaus em linha reta. O município faz divisa com Parintins e Urucará, no Amazonas, além do estado do Pará e do estado de Roraima. O rio Nhamundá funciona como um dos principais elementos da paisagem e também como referência territorial entre Amazonas e Pará.
Com área aproximada de 14,1 mil quilômetros quadrados, o município possui uma sede urbana e dezenas de comunidades rurais. A ligação por via fluvial continua sendo fundamental para o deslocamento de moradores, o transporte de mercadorias e o acesso a localidades do interior. Embarcações regionais conectam Nhamundá principalmente a Parintins e Manaus, enquanto o transporte aéreo é utilizado de forma mais restrita.
Os dados populacionais variam conforme o ano e a metodologia de contagem. A Prefeitura informa que o município tinha 21.710 habitantes em 2021, distribuídos entre a sede e 62 comunidades rurais. Para números atualizados, a referência adequada é o perfil de Nhamundá no IBGE.
As origens indígenas e o nome Nhamundá
Antes da formação administrativa do município, a região já era ocupada por povos indígenas. Documentos de planejamento municipal citam grupos como Uabuís, Cunuris e Guaicaris entre os habitantes antigos da área, onde existia uma aldeia associada ao nome Faro.
A origem do nome Nhamundá está ligada ao rio que atravessa o território. Registros locais também relacionam a denominação a formas indígenas como Jamundá ou Cumuri. A história da região, portanto, está vinculada não apenas à presença física do curso d’água, mas também às populações que ocuparam suas margens e cabeceiras.
O município preserva ainda referências a outros povos indígenas presentes na região, entre eles os Hixkaryana e os Waiwai. Essa diversidade faz parte da formação histórica do Baixo Amazonas e ajuda a explicar a permanência de costumes, narrativas, conhecimentos sobre a floresta e modos de vida associados aos rios.
A lenda das Icamiabas
Uma das narrativas mais conhecidas relacionadas a Nhamundá é a das Icamiabas, mulheres guerreiras mencionadas nos relatos da expedição de Francisco de Orellana pelo rio Amazonas, no século 16. Segundo a tradição histórica regional, o encontro teria ocorrido nas proximidades do rio Nhamundá.
Os relatos europeus associaram essas guerreiras às amazonas da mitologia grega. A referência contribuiu para a formação do nome do rio Amazonas e, posteriormente, do próprio estado. Na memória de Nhamundá, a narrativa permanece associada à chamada Ilha das Icamiabas e a lugares como a Serra do Espelho da Lua.
É importante distinguir a documentação histórica da tradição oral. Os registros da expedição foram produzidos por viajantes europeus e passaram por interpretações ao longo dos séculos. Já as narrativas locais incorporaram a história às paisagens, às festas e à identidade cultural do município.
Da vila à emancipação política
A trajetória administrativa de Nhamundá passou por diferentes denominações e vínculos territoriais. De acordo com documentos municipais, a localidade foi elevada à categoria de vila em 1758. No início do século 20, apareceu vinculada ao município de Parintins na divisão administrativa brasileira.
Durante esse processo, a área também esteve associada ao distrito de Ilha das Cotias. Em 19 de dezembro de 1955, a Lei Estadual nº 96 desmembrou o distrito de Parintins e criou o município autônomo de Nhamundá. A instalação ocorreu em 31 de janeiro de 1956, data que passou a marcar o aniversário municipal.
A emancipação representou uma mudança importante na organização política local. A partir dela, Nhamundá passou a contar com administração própria, embora a vida econômica e social continuasse fortemente ligada às rotas fluviais, às comunidades rurais e às atividades tradicionais da região.
O rio como eixo da paisagem
O rio Nhamundá é o principal elemento natural do município. Conhecido também como Jamundá ou Cumuri, ele é um afluente da margem esquerda do rio Amazonas e percorre áreas dos estados do Amazonas e do Pará.
Em seu curso superior, o rio apresenta trechos de corredeiras e cachoeiras. Mais abaixo, atravessa áreas de vale, passa por ilhas e forma ambientes de águas tranquilas. Estudos ambientais municipais descrevem o Nhamundá como um rio de águas claras, com leito arenoso e grande importância para a drenagem, a circulação e a paisagem regional.
O curso d’água também se conecta a paranás, lagos e áreas de várzea. Durante o período de cheia, muitas dessas áreas mudam de configuração, ampliando a presença da água e alterando os caminhos utilizados pelas comunidades. Essa dinâmica é parte do cotidiano amazônico e influencia o transporte, a pesca, a agricultura e o calendário das atividades locais.
Praias, ilhas e áreas naturais
Entre os cenários associados a Nhamundá estão as praias formadas durante o período de vazante dos rios. A Praia da Liberdade é uma das áreas utilizadas para atividades de lazer e para festivais de verão. A paisagem combina areia, água doce, vegetação e o movimento das embarcações que circulam pelo município.
O entorno da sede também é marcado por pequenas ilhas, canais e áreas de floresta. A Prefeitura cita a Serra do Espelho da Lua e a Cachoeira da Fumaça entre os lugares relacionados ao potencial turístico local. O acesso a esses pontos depende das condições do rio, da distância e, em alguns casos, de autorização ou acompanhamento adequado.
O Complexo de Lagos do Macuricanã também aparece entre os ambientes de interesse ambiental e pesqueiro da região. A área está relacionada à Área de Proteção Ambiental Nhamundá e abriga diferentes espécies de peixes. Como em outras áreas amazônicas, a visitação deve considerar regras ambientais, períodos de defeso e orientações das autoridades locais.
Pesca, festas e cultura ribeirinha
A pesca ocupa lugar importante na economia, na alimentação e na cultura de Nhamundá. O município ganhou visibilidade como destino de pesca esportiva, especialmente por causa do tucunaré. A atividade é associada ao rio Nhamundá, ao alto curso do rio e aos lagos do Macuricanã.
A Festa da Pesca do Tucunaré é uma das principais manifestações do calendário local. De acordo com a Prefeitura, o evento reúne programação cultural e um festival de pesca esportiva realizado durante 72 horas, tradicionalmente no último fim de semana de setembro. A realização depende da organização municipal e das regras ambientais aplicáveis.
Além da pesca, o calendário de Nhamundá inclui eventos ligados à produção rural, à cultura e à convivência comunitária. A Expoanh reúne atividades agropecuárias e produtos da agricultura familiar. Já iniciativas como a FeirArte valorizam artesanato, criatividade e produção local.
A religiosidade também integra a vida social do município. Nossa Senhora da Assunção é considerada padroeira, enquanto Santo Antônio é reconhecido como co-padroeiro. Festas religiosas, celebrações comunitárias e tradições transmitidas entre gerações ajudam a manter vínculos entre a sede e as comunidades do interior.
Uma paisagem moldada pelas águas
O território de Nhamundá é formado principalmente por áreas de planície amazônica, com terrenos planos ou suavemente ondulados, áreas de terra firme e regiões de várzea sujeitas à inundação. Essa configuração produz uma paisagem que muda ao longo do ano, conforme sobem ou baixam os níveis dos rios.
Na cheia, os caminhos terrestres podem ser substituídos por rotas aquáticas. Na vazante, surgem praias, bancos de areia e novos espaços de circulação. Para os moradores, essa alternância não é apenas um fenômeno natural: ela organiza a rotina, define trajetos, influencia a pesca e interfere no acesso a serviços e mercadorias.
A floresta, os rios e as comunidades formam um conjunto inseparável. Por isso, a história de Nhamundá não pode ser contada apenas a partir de datas administrativas. Ela também está presente nas técnicas de navegação, no uso dos recursos naturais, na culinária baseada em peixes e farinha, nas festas e nas narrativas sobre as origens do lugar.
Nhamundá entre memória e futuro
Ao longo de sua história, Nhamundá passou de uma localidade vinculada a antigas aldeias e rotas fluviais a um município autônomo do Amazonas. A emancipação política consolidou uma administração própria, mas não rompeu a relação profunda com o rio e com as comunidades rurais.
Hoje, o município procura fortalecer atividades como o turismo de natureza, a pesca esportiva, os eventos culturais e a valorização da produção local. Esse processo convive com desafios comuns a cidades amazônicas de grande extensão territorial, como as distâncias, a dependência do transporte fluvial e a necessidade de conciliar desenvolvimento econômico e conservação ambiental.
Conhecer Nhamundá é, portanto, observar uma paisagem em movimento e uma história construída por diferentes tempos. É reconhecer a presença indígena, compreender a importância do rio, acompanhar a vida das comunidades e perceber como as lendas das Icamiabas continuam dialogando com praias, ilhas, cachoeiras e florestas do Baixo Amazonas.
As informações históricas e geográficas usadas nesta reportagem foram conferidas em documentos do Governo do Amazonas, na página institucional da Prefeitura de Nhamundá e no conteúdo sobre turismo do município.