domingo, 27 de setembro de 2026
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Codajás: o município do Amazonas conhecido pela produção de açaí

Codajás, no Amazonas, é reconhecido pela produção de açaí, atividade que combina extrativismo, cultivo agrícola, comércio e tradição cultural. Conheça a história do município e a importância do fruto para a economia local.

Codajás é um dos municípios do Amazonas mais associados à produção de açaí. Localizada às margens do rio Solimões, a cidade construiu parte importante de sua identidade econômica, social e cultural em torno do fruto amazônico, presente no trabalho das comunidades rurais, no comércio regional e nas celebrações do calendário local.

O reconhecimento dessa relação ganhou respaldo institucional em 11 de dezembro de 2023, quando a Assembleia Legislativa do Amazonas aprovou a Lei nº 6.611, que conferiu a Codajás o título de “Capital Amazonense do Açaí”. A denominação oficial reforçou uma reputação que já fazia parte da vida cotidiana do município e da imagem da cidade dentro do estado.

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também mostram a dimensão da atividade. Na Pesquisa Agrícola Municipal de 2025, Codajás apareceu como o maior produtor de açaí cultivado do Amazonas em valor da produção, com R$ 85,8 milhões. No mesmo ano, o estado registrou R$ 250,027 milhões na produção de açaí cultivado.

Onde fica Codajás

Codajás está situada na região do médio Solimões, no interior do Amazonas. O município fica na margem esquerda do rio Solimões e tem ligação histórica e econômica com a dinâmica dos rios, lagos e comunidades ribeirinhas da região.

De acordo com informações divulgadas pela Amazonastur, a cidade está a cerca de 240 quilômetros de Manaus. Como ocorre em grande parte do interior amazonense, o deslocamento fluvial tem papel relevante na circulação de pessoas, mercadorias e produtos agrícolas.

O território municipal é marcado por áreas de várzea, cursos d’água, lagos e ambientes de floresta. Essa configuração influencia diretamente as formas de ocupação, o calendário das atividades rurais e o transporte da produção. No caso do açaí, a relação entre o ciclo das águas e o acesso às áreas produtivas é um dos elementos que ajudam a explicar a importância da logística para a cadeia do fruto.

As origens históricas do município

A história de Codajás está ligada à presença indígena e à ocupação das margens e dos lagos da região do Solimões. Registros históricos reproduzidos em documentos públicos apontam que a localidade era associada à aldeia de Cudaiá, nome relacionado aos povos indígenas que habitavam a área. Posteriormente, a região também teve presença dos Mura, grupo que ocupava áreas próximas dos rios Amazonas e Madeira.

O processo de formação da povoação ganhou novo impulso em 1864, com a chegada de José Manoel da Rocha Thury, procedente de Turiaçu, no Maranhão. Ele teria levado famílias para a área e estabelecido uma fazenda de gado, contribuindo para o crescimento do núcleo habitacional.

Inicialmente, a localidade ficou conhecida como Barreiras de Cudajáz. Em 1868, passou a ser denominada Freguesia de Nossa Senhora das Graças de Cudajáz. A aprovação canônica ocorreu em 1870, de acordo com os registros históricos consultados.

O município foi criado pela Lei Provincial nº 287, de 1º de maio de 1874, e instalado em 5 de agosto de 1875. Ao longo das décadas seguintes, Codajás se consolidou como uma comunidade ribeirinha cuja economia esteve relacionada a diferentes ciclos produtivos da Amazônia.

Da economia regional ao protagonismo do açaí

Antes de se tornar conhecida principalmente pelo açaí, Codajás esteve inserida em atividades tradicionais da economia amazônica, como a criação de gado, o extrativismo e a exploração da borracha. Como em outros municípios do interior, os ciclos econômicos influenciaram a ocupação do território e a formação das comunidades.

O açaí, entretanto, encontrou condições favoráveis para se tornar uma das principais referências locais. O fruto é obtido tanto por meio do extrativismo de açaizeiros nativos quanto pelo cultivo em áreas manejadas ou plantadas. Essa diferença é importante porque as estatísticas oficiais acompanham as duas modalidades em pesquisas distintas.

A Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura, do IBGE, mede o açaí obtido no extrativismo. Já a Pesquisa Agrícola Municipal registra a produção cultivada. Portanto, os números de uma pesquisa não devem ser somados automaticamente aos da outra, porque representam formas diferentes de produção.

Em levantamentos históricos do IBGE, Codajás aparece entre os principais municípios brasileiros na produção extrativa de açaí. Em 2014, por exemplo, o município ocupou a segunda posição nacional no volume de açaí extraído, com 25 mil toneladas, atrás de Limoeiro do Ajuru, no Pará. O dado demonstra que a importância de Codajás não se limita ao cultivo agrícola recente, mas também está relacionada ao aproveitamento tradicional das palmeiras nativas.

O açaí na economia de Codajás

A produção de açaí movimenta uma cadeia que envolve agricultores, extrativistas, trabalhadores das comunidades, transportadores, comerciantes e unidades de beneficiamento. O fruto precisa ser colhido, transportado e processado em um intervalo relativamente curto, o que torna a organização da cadeia e as condições de transporte fatores decisivos para a qualidade e o valor comercial do produto.

Nas áreas rurais, a atividade está associada ao conhecimento sobre o período de colheita, o manejo das palmeiras e o deslocamento por rios e igarapés. Em muitas comunidades amazônicas, a produção agrícola não é uma atividade isolada: ela convive com a pesca, a agricultura de subsistência, o extrativismo de outros produtos e o comércio de pequena escala.

Os números da PAM 2025 colocam Codajás na liderança estadual do açaí cultivado em valor da produção. O resultado também evidencia a concentração da atividade no município. Com R$ 85,8 milhões, Codajás respondeu por uma parcela expressiva do valor registrado para o Amazonas naquele ano.

O dado, porém, deve ser interpretado dentro do contexto amazônico. O valor da produção pode variar conforme preços, volume comercializado, condições de transporte, custos de produção e demanda regional. Por isso, a liderança em determinado ano não significa que a produção permaneça constante ou que o município seja o único centro importante do setor.

Extrativismo e cultivo convivem na região

O açaí amazônico pode chegar ao mercado por diferentes caminhos. No extrativismo, os frutos são colhidos em áreas de floresta ou de vegetação nativa, geralmente por trabalhadores que conhecem o território e os períodos de maior oferta. No cultivo, a produção ocorre em áreas manejadas ou plantadas, com maior intervenção do produtor no espaçamento, na seleção de mudas e nos cuidados com o açaizeiro.

As duas formas de produção podem coexistir em um mesmo município e atender a mercados semelhantes. Em Codajás, essa combinação ajuda a explicar por que o açaí ocupa um espaço tão importante na economia e na cultura. O fruto está relacionado tanto a práticas tradicionais quanto à expansão de sistemas produtivos voltados ao mercado.

O IBGE ressalta que o cultivo do açaí vem ganhando espaço no país e que essa produção é acompanhada pela Pesquisa Agrícola Municipal. A mudança estatística acompanha uma transformação econômica: além da coleta em áreas nativas, aumentam as iniciativas de plantio e manejo planejado para garantir oferta regular.

Festas e identidade cultural

A relação de Codajás com o açaí também aparece nas manifestações culturais. A cidade celebra a safra do fruto e promove atividades que reúnem moradores, produtores e visitantes. Entre as atrações citadas pela Amazonastur estão eventos culturais, apresentações folclóricas e a disputa da Rainha do Açaí.

Essas celebrações cumprem uma função que vai além do entretenimento. Elas ajudam a transformar uma atividade econômica em elemento de identidade coletiva, valorizando os trabalhadores responsáveis pela produção e reforçando a associação do município com o fruto.

O calendário cultural de Codajás inclui ainda festejos religiosos, apresentações de grupos folclóricos, quadrilhas, boi-bumbá e danças regionais. Durante o período de estiagem, as praias formadas nas margens do Solimões também podem se tornar pontos de convivência e visitação, de acordo com as condições do rio.

O título de Capital Amazonense do Açaí

A Lei nº 6.611, publicada em dezembro de 2023, formalizou o título de Capital Amazonense do Açaí. O texto legal é curto e não estabelece metas econômicas, programas específicos ou recursos próprios para a atividade. Seu efeito principal é simbólico e institucional: reconhecer oficialmente a relação histórica e produtiva entre Codajás e o açaí.

O título também fortalece a identificação do município em ações de promoção cultural, turística e agropecuária. Para que esse reconhecimento se converta em desenvolvimento duradouro, a cadeia produtiva depende de fatores como assistência técnica, acesso a crédito, melhoria do transporte, armazenamento adequado, beneficiamento e abertura de mercados.

Desafios para a cadeia produtiva

A produção de açaí em áreas ribeirinhas enfrenta desafios próprios da realidade amazônica. A distância entre comunidades e centros consumidores, a dependência do transporte fluvial e as oscilações do nível dos rios podem afetar o escoamento e os custos da atividade.

Outro ponto é a necessidade de reduzir perdas após a colheita. Como o fruto é perecível, o tempo entre a retirada da palmeira e o processamento influencia diretamente a qualidade do produto final. Estruturas de beneficiamento próximas às áreas produtoras podem contribuir para agregar valor e ampliar as oportunidades econômicas.

A sustentabilidade também é parte central do debate. O aumento da produção precisa ser acompanhado por manejo adequado, conservação das áreas de floresta e valorização do conhecimento das comunidades. A expansão do cultivo não elimina a importância do extrativismo, mas pode complementar a oferta quando planejada de acordo com as condições ambientais e sociais do território.

Por que Codajás se tornou referência

Codajás se tornou referência na produção de açaí pela combinação de fatores históricos, geográficos e econômicos. A presença de comunidades ribeirinhas, a disponibilidade de áreas favoráveis ao açaizeiro, a tradição extrativista e a criação de sistemas de cultivo ajudaram a formar uma cadeia produtiva reconhecida dentro e fora do Amazonas.

O município também reúne a dimensão econômica e a dimensão cultural do fruto. O açaí gera renda, movimenta o transporte e o comércio, aparece nas festas locais e ajuda a definir a imagem de Codajás. Por isso, a cidade é conhecida não apenas como produtora, mas como um território cuja história recente está profundamente ligada ao fruto amazônico.

Com o título oficial de Capital Amazonense do Açaí e a liderança estadual no valor da produção cultivada em 2025, Codajás mantém uma posição de destaque no setor. O futuro da atividade dependerá da capacidade de conciliar produtividade, qualidade, logística, preservação ambiental e melhoria das condições de trabalho nas comunidades produtoras.

Fontes: IBGE Cidades e Estados; IBGE Produção Agrícola Municipal; Amazonastur; Lei estadual nº 6.611/2023.