sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Municípios do Amazonas

Entre cheias e comunidades, Anamã organiza sua história em torno dos rios

Localizado no Amazonas, Anamã tem ocupação ligada aos seringais, às comunidades tradicionais e à dinâmica dos rios. A história de emancipação, os indicadores do IBGE e os episódios de cheia ajudam a explicar a formação e os desafios do município.

Anamã, no Amazonas, construiu sua identidade em uma relação direta com os rios, as áreas de várzea e as comunidades que ocupam o território além da sede urbana. A história local reúne a exploração dos seringais, a formação de núcleos de moradores, a presença de povos indígenas e atividades como agricultura e pesca.

Conhecido popularmente como “Veneza do Amazonas”, o município também convive com a elevação periódica das águas. Em períodos de cheia, áreas urbanas podem ser inundadas, alterando deslocamentos e exigindo adaptações no funcionamento de serviços e na rotina dos moradores.

Anamã fica a oeste de Manaus e integra a Região Geográfica Imediata de Manacapuru e a Região Geográfica Intermediária de Manaus. O município limita-se com Anori ao norte e a oeste, Beruri ao sul e Manacapuru a leste, segundo informações da administração municipal.

Da exploração dos seringais à emancipação

O histórico divulgado pela Prefeitura de Anamã registra a presença de fazendeiros na região antes de 1843. A formação dos primeiros núcleos de moradores é associada à procura por terras férteis e por áreas de exploração de seringais.

Outra etapa do povoamento é situada por volta de 1936, quando antigos seringueiros vindos do Acre chegaram à região. A atividade da borracha deixou marcas na memória do município e ajuda a explicar uma das denominações populares atribuídas ao lugar: Alto Seringal.

Também aparece nos registros municipais o nome Princesa de Anori, usado por moradores na década de 1960. As duas denominações fazem parte da memória local, mas não são necessariamente nomes administrativos oficiais.

A emancipação política ocorreu em 1981, por meio da Emenda Constitucional estadual nº 12, quando Anamã se desmembrou de Anori. O histórico municipal atribui participação no processo a Sebastião Pacheco Teles, então vereador de Anori. Ele venceu as primeiras eleições municipais, realizadas em 1982.

O aniversário oficial do município é celebrado em 31 de janeiro. A data foi estabelecida pela Lei Municipal nº 298, de 26 de setembro de 2017, e passou a integrar as referências administrativas e de memória coletiva de Anamã.

O significado do nome Anamã

A origem do nome é apresentada pela prefeitura a partir de uma pesquisa de Ivany Jamys Ferreira Régis, relacionada ao nheengatu, língua de base tupi historicamente utilizada na Amazônia.

O estudo recupera registros do vocabulário de Ermanno Stradelli, publicado em 1928. Entre os sentidos encontrados estão “espesso”, “desmamado” e uma denominação de marreca.

A variedade de significados registrados não permite atribuir uma tradução única ao nome. Também não há documentação suficiente, no material municipal, para afirmar que a escolha tenha ocorrido especificamente por causa da vegetação ou de bebidas indígenas.

Território formado por comunidades

A vida de Anamã não se resume à área urbana. A prefeitura relaciona 22 comunidades em sua página de dados gerais, embora não informe o ano de referência dessa contagem.

Entre as localidades citadas estão Arixi, Cuia, Novo Brasil, Mato Grosso e Nossa Senhora de Nazaré. Os registros também mencionam São José e Eware como comunidades Tikuna. Bom Jesus, Nova Esperança e Santa Luzia são relacionadas ao povo Kokama, na Ilha do Camaleão.

A presença dessas comunidades mostra a diversidade social e cultural do município. Diferentes formas de organização, conhecimentos tradicionais e práticas de produção participam da construção da identidade de Anamã.

O clima é equatorial, quente e úmido. A rede de rios influencia a circulação, o trabalho e a organização das comunidades. Essa característica territorial também interfere na oferta e na continuidade de serviços públicos, especialmente durante os períodos de cheia.

População e indicadores do município

O painel Cidades e Estados, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registra área territorial de 2.382,521 quilômetros quadrados e população residente de 9.962 habitantes no Censo de 2022.

A população estimada apresentada pelo painel é de 9.981 habitantes em 2026. A diferença em relação ao Censo de 2022 é de 19 pessoas, o equivalente a aproximadamente 0,19% na comparação entre a estimativa e a contagem censitária.

A densidade demográfica registrada para 2022 é de 4,07 habitantes por quilômetro quadrado. A escolarização de crianças e adolescentes de 6 a 14 anos aparece com índice de 97,93%, também referente a 2022. Esse indicador mede matrícula, mas não representa, por si só, o nível de aprendizagem.

O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de Anamã é de 0,594, segundo dado de 2010. O resultado está na faixa de baixo desenvolvimento humano e não deve ser interpretado como um retrato atualizado das condições atuais do município.

O PIB por habitante informado pelo IBGE é de R$ 15.528,45, com referência a 2023. O indicador corresponde à produção econômica média por pessoa e não equivale à renda individual dos moradores.

O painel também registra mortalidade infantil de 11,36 óbitos por mil nascidos vivos em 2025. Para avaliar a evolução desse indicador, é necessário observar uma série histórica, e não apenas um dado isolado.

Nas contas públicas, as receitas brutas realizadas somam R$ 104.407.370,57 em 2025, enquanto as despesas brutas empenhadas chegam a R$ 85.950.030,37 no mesmo ano. Os valores correspondem aos indicadores apresentados pelo IBGE, conforme os anos de referência exibidos no painel municipal.

Agricultura, pesca e possibilidades turísticas

A agricultura e a pesca estão entre as atividades associadas à economia de Anamã. A estrutura municipal inclui a Secretaria de Produção Rural e Abastecimento, que tem atribuições relacionadas ao apoio à agricultura familiar, à pecuária, à pesca artesanal e ao extrativismo sustentável.

Entre as funções previstas estão assistência técnica, acesso a crédito e incentivo ao associativismo. Essas atribuições indicam áreas de atuação da administração municipal, sem permitir concluir, isoladamente, sobre resultados econômicos ou sociais alcançados.

O ambiente aquático também é apontado como fator de interesse turístico. A Amazonastur destaca áreas para banho e indica os lagos Membeca e Patuá como locais para pesca esportiva.

As informações disponíveis identificam atrativos naturais, mas não apresentam número de visitantes nem estimativa da participação do turismo na economia de Anamã.

Cheias impõem adaptações ao cotidiano

A relação com os rios envolve tanto atividades produtivas quanto dificuldades para a população. Durante grandes cheias, áreas da cidade podem ficar tomadas pelas águas, modificando as formas de circulação. Reportagens registram o uso de canoas em ruas atingidas pela inundação.

Em 9 de junho de 2025, o Governo do Amazonas homologou situação de emergência em Anamã por meio do Decreto nº 51.871. O documento registrou inundações provocadas pela elevação dos rios Solimões e Anamã, com danos materiais, ambientais, econômicos e sociais em áreas urbanas e rurais.

A Defesa Civil municipal prevê ações de monitoramento de áreas de risco, planejamento preventivo, assistência às famílias e atenção às cheias periódicas do Solimões. A estrutura reforça a necessidade de considerar o regime das águas no planejamento urbano e na continuidade dos serviços.

Em Anamã, a memória dos seringais, a diversidade das comunidades e as atividades agrícolas e pesqueiras permanecem vinculadas à paisagem fluvial. A história e os desafios do município são, portanto, inseparáveis de um território em que os rios influenciam a ocupação, a economia e a vida cotidiana.