A prevenção de doenças durante a seca dos rios no Amazonas exige atenção principalmente à qualidade da água, à hidratação, à exposição ao calor, à fumaça e à presença de mosquitos. Com a redução do nível dos rios e dos igarapés, comunidades ribeirinhas podem enfrentar dificuldade para obter água própria para consumo, além de obstáculos para o transporte de alimentos, medicamentos e atendimento de saúde.
O Ministério da Saúde relaciona os períodos de seca ao aumento do risco de doenças transmitidas pela água, desidratação, problemas respiratórios, irritações nos olhos, doenças de pele e agravamento de doenças crônicas. No Amazonas, a estiagem também pode comprometer a rotina de prevenção e diagnóstico de doenças como a malária, especialmente em áreas rurais, de mata e próximas a cursos d’água. (gov.br)
Por que a seca aumenta os riscos à saúde
A baixa dos rios reduz a disponibilidade de água e pode concentrar contaminantes em fontes utilizadas pelas comunidades. Quando a água não é tratada adequadamente, aumenta o risco de doenças diarreicas agudas, hepatites A e E, verminoses e outras infecções relacionadas ao consumo ou ao uso de água contaminada. A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas já alertou municípios sobre esses riscos durante períodos de estiagem. (saude.am.gov.br)
A seca também pode elevar a temperatura e reduzir a umidade do ar. Esses fatores favorecem desidratação, insolação, irritação das vias respiratórias e agravamento de problemas cardíacos e pulmonares. Em áreas atingidas por queimadas, a fumaça acrescenta partículas que podem provocar tosse, falta de ar, ardência nos olhos e piora de doenças como asma e bronquite.
Crianças pequenas, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores expostos ao sol e moradores de comunidades com dificuldade de acesso aos serviços de saúde estão entre os grupos que exigem maior atenção.
Como tornar a água segura para beber
A água retirada de rios, igarapés, poços ou outras fontes não deve ser consumida sem tratamento, mesmo quando apresenta aparência limpa. A orientação é filtrar ou coar a água e, em seguida, fazer a desinfecção com hipoclorito de sódio a 2,5%, quando o produto estiver disponível e for próprio para esse uso.
Para tratar a água destinada ao consumo, o Ministério da Saúde orienta adicionar duas gotas de hipoclorito de sódio a 2,5% para cada litro de água filtrada. Depois, é necessário misturar e aguardar 30 minutos antes de beber. A água tratada dessa forma deve ser consumida em até 24 horas. (gov.br)
O produto utilizado não deve conter perfume, essência, desinfetante ou outros aditivos. Também é importante conferir a concentração indicada no rótulo e seguir a orientação da Secretaria Municipal de Saúde quando houver distribuição de frascos de hipoclorito na comunidade.
Na falta do hipoclorito, a alternativa é filtrar ou coar a água e fervê-la por cinco minutos após o início da fervura. Depois, a água deve esfriar em recipiente limpo, fechado e protegido de novas contaminações. (gov.br)
Armazenamento correto evita nova contaminação
Depois de tratada, a água deve ser guardada em recipiente limpo, com tampa e, de preferência, com abertura estreita. O recipiente precisa ser usado exclusivamente para água de consumo e mantido longe de animais, produtos químicos, poeira e calor excessivo.
Antes de manusear a água ou o recipiente, lave as mãos. Evite colocar copos, conchas ou outros objetos diretamente dentro da vasilha. O ideal é utilizar um recipiente com torneira ou servir a água sem tocar a parte interna da tampa e da embalagem.
Garrafas, baldes e caixas-d’água também precisam ser higienizados regularmente. A água não deve ser misturada com outra água de origem desconhecida e não deve permanecer armazenada por tempo superior ao recomendado para o método de tratamento utilizado.
Cuidados com alimentos e higiene
Frutas, verduras e legumes devem ser lavados com água segura antes do consumo. Alimentos crus ou cozidos não devem ser preparados com água sem tratamento. Também é necessário manter utensílios, superfícies e mãos limpos, especialmente antes de preparar refeições e depois de usar o banheiro ou trocar fraldas.
Quando houver suspeita de contaminação, descarte alimentos que tenham entrado em contato com água imprópria, lama, recipientes sujos ou superfícies contaminadas. Produtos com embalagem danificada, estufada, enferrujada ou com alteração de cheiro e aparência também não devem ser consumidos.
A lavagem das mãos continua sendo uma das medidas mais importantes para reduzir a transmissão de doenças. Quando não houver água disponível no momento, o álcool em gel pode ser utilizado nas situações em que as mãos não estejam visivelmente sujas. Assim que possível, a higiene deve ser feita com água e sabão.
Como prevenir a desidratação e os efeitos do calor
Durante os dias mais quentes, beba água em intervalos regulares, sem esperar o surgimento da sede. Crianças, idosos e pessoas doentes podem não perceber ou não conseguir comunicar adequadamente que precisam de líquidos e devem ser acompanhados por familiares ou responsáveis.
Evite exposição direta ao sol nos horários de maior calor e reduza atividades físicas intensas ao ar livre nesses períodos. Prefira roupas leves, chapéu ou boné e ambientes ventilados. A recomendação é reforçada para trabalhadores rurais, pescadores, transportadores e pessoas que precisam percorrer longas distâncias durante a vazante.
Os sinais de alerta para desidratação incluem sede intensa, boca seca, fraqueza, tontura, dor de cabeça, redução da urina e urina muito escura. Em crianças, também podem ocorrer sonolência incomum, irritabilidade, choro sem lágrimas e diminuição das idas ao banheiro. Em casos de confusão mental, desmaio, dificuldade para respirar ou piora rápida, procure atendimento de saúde imediatamente.
Pessoas que fazem tratamento para hipertensão, diabetes, doenças cardíacas ou renais não devem alterar medicamentos ou a quantidade de líquidos por conta própria. A orientação deve ser individualizada por profissional de saúde.
Proteção contra fumaça e poeira
A fumaça de queimadas e a poeira podem irritar os olhos, o nariz, a garganta e os pulmões. Para reduzir a exposição, mantenha portas e janelas fechadas nos momentos de maior concentração de fumaça, evite atividades físicas ao ar livre e procure permanecer em locais ventilados e afastados dos focos de incêndio.
Beber água regularmente ajuda a manter as vias respiratórias hidratadas, mas não elimina os efeitos da fumaça. Pessoas com asma, doença pulmonar, problemas cardíacos, crianças e idosos devem receber atenção especial. A exposição prolongada a partículas finas pode agravar doenças respiratórias e cardiovasculares preexistentes. (gov.br)
Se houver falta de ar, chiado no peito, dor no peito, lábios arroxeados, confusão, sonolência intensa ou piora de uma doença respiratória, é necessário procurar atendimento. Medicamentos de uso contínuo devem ser mantidos conforme prescrição, sem interrupção ou alteração sem avaliação profissional.
Prevenção da malária no período de estiagem
A malária continua sendo um importante problema de saúde pública no Amazonas. A doença é transmitida pela picada do mosquito do gênero Anopheles, que pode estar presente em áreas rurais, de mata e próximas a rios e igarapés. A FVS-RCP orienta o uso de mosquiteiros, roupas que cubram braços e pernas, repelente e telas em portas e janelas. (saude.am.gov.br)
O mosquiteiro impregnado com inseticida deve ser utilizado corretamente durante o sono, sem ficar preso ao corpo e sem apresentar rasgos. Também é importante evitar permanecer exposto aos mosquitos nos períodos de maior atividade, especialmente entre o entardecer e o amanhecer, conforme as orientações locais de vigilância.
Febre, calafrios, dor de cabeça, fraqueza, dores no corpo, náuseas e sudorese podem ocorrer na malária, mas os sintomas variam. Quem vive ou esteve em área de transmissão e apresenta febre deve procurar uma unidade de saúde para avaliação e teste. O diagnóstico e o tratamento precoces reduzem o risco de agravamento e ajudam a interromper a transmissão.
Outras medidas importantes durante a seca
Evite contato desnecessário com água de aparência alterada, mau cheiro ou presença de resíduos. Não descarte lixo, fezes ou produtos químicos próximo a rios, igarapés, poços e locais usados para captação de água.
Mantenha medicamentos de uso contínuo em quantidade suficiente para o período previsto, sempre dentro da validade e armazenados conforme a recomendação da embalagem. Em comunidades isoladas, é importante informar com antecedência às equipes de saúde sobre pessoas que precisam de acompanhamento, principalmente crianças, idosos, gestantes e pacientes com doenças crônicas.
Vacinas também devem estar atualizadas. A caderneta pode ser conferida na unidade de saúde do município, que orientará sobre as doses indicadas para cada faixa etária e situação clínica.
Quando procurar atendimento
Procure uma unidade de saúde diante de diarreia intensa ou persistente, sangue nas fezes, vômitos repetidos, febre alta, sinais de desidratação, dificuldade para respirar, dor no peito, confusão mental, desmaio ou piora de doença crônica.
Em crianças pequenas, idosos e pessoas com doenças preexistentes, a avaliação deve ser buscada mais cedo. Não use antibióticos, antidiarreicos, antimaláricos ou outros medicamentos por conta própria. O tratamento depende da causa do problema e pode ser diferente para cada paciente.
As orientações podem ser complementadas pelos serviços municipais de saúde, pelas equipes que atendem comunidades ribeirinhas e pelos canais oficiais da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas, da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas e do Ministério da Saúde.
Durante a seca dos rios, medidas simples — como tratar a água, manter os alimentos protegidos, beber líquidos regularmente, evitar fumaça e usar mosquiteiro — reduzem riscos e ajudam a proteger toda a comunidade. A prevenção deve ser reforçada principalmente onde a distância até os serviços de saúde aumenta por causa da vazante.