O paradesporto no Amazonas consolidou, nas últimas décadas, uma trajetória que combina iniciação escolar, participação em competições nacionais e presença em eventos internacionais. O estado já revelou atletas que chegaram à seleção brasileira e disputaram Jogos Paralímpicos, enquanto projetos escolares e centros de treinamento ampliaram o acesso de pessoas com deficiência ao esporte.
Entre os nomes de maior destaque estão Laiana Rodrigues, do vôlei sentado, e Maria de Fátima Castro, do halterofilismo. As duas representam momentos diferentes dessa trajetória: Laiana iniciou no esporte convencional, passou a atuar na formação de outros atletas e depois chegou à seleção paralímpica; Maria conheceu o halterofilismo já adulta e alcançou o pódio em sua primeira participação nos Jogos Paralímpicos.
O desempenho dos atletas amazonenses também aparece nas categorias de base. Em 2024, a delegação do estado conquistou 37 medalhas nas Paralimpíadas Escolares, sendo 17 de ouro, 11 de prata e nove de bronze. Os resultados foram obtidos em modalidades como atletismo, tênis de mesa e parabadminton.
Da escola para as grandes competições
Os Jogos Escolares do Amazonas funcionam como uma das principais portas de entrada para jovens com deficiência que desejam praticar esporte. A trajetória de Laiana Rodrigues é um dos exemplos mais conhecidos desse caminho.
Nascida e criada em Manaus, Laiana começou a jogar vôlei aos 14 anos, quando estudava em uma escola da rede estadual. Ela participou dos Jogos Escolares do Amazonas como atleta e, mais tarde, também atuou como treinadora. A experiência na competição escolar foi decisiva para aproximá-la das estruturas esportivas da capital.
Na adolescência, Laiana ainda não tinha deficiência. Aos 18 anos, depois de enfrentar um quadro de dengue hemorrágica, desenvolveu a síndrome de Guillain-Barré, uma doença que afeta o sistema nervoso e pode provocar perda de força muscular e dificuldades de movimento. O problema interrompeu planos de profissionalização no voleibol convencional.
O afastamento das quadras, porém, não encerrou sua relação com o esporte. Laiana formou-se em Educação Física, trabalhou com pessoas com deficiência e voltou aos Jogos Escolares como treinadora. Também concluiu cursos de bocha paralímpica e vôlei sentado na Universidade Federal do Amazonas.
A experiência acumulada abriu caminho para a seleção brasileira feminina de vôlei sentado. Laiana disputou os Jogos Paralímpicos do Rio, em 2016, e de Tóquio, em 2021, além de competições internacionais como os Jogos Parapan-Americanos. Em 2024, participou dos Jogos de Paris em sua terceira convocação para a seleção.
A trajetória da atleta mostra como o paradesporto pode cumprir funções diferentes ao longo da vida: iniciação esportiva, formação profissional, reabilitação, convivência social e alto rendimento. Também evidencia a importância de professores e treinadores que identificam talentos ainda no ambiente escolar.
Maria de Fátima e o pódio em Paris
Natural de Tefé, no interior do Amazonas, Maria de Fátima Costa de Castro nasceu com má-formação congênita nas pernas. Ela conheceu o halterofilismo em 2017 e passou a se dedicar à modalidade de forma mais intensa a partir de 2019, depois do incentivo de colegas e do treinador.
A progressão foi rápida. Antes de chegar aos Jogos Paralímpicos, Maria conquistou bronze na Copa do Mundo de Dubai, em 2022, bronze nos Jogos Parapan-Americanos de Santiago e prata por equipes no Mundial de Dubai, ambos em 2023.
Em Paris, a atleta competiu na categoria até 67 quilos. Em 6 de setembro de 2024, levantou 133 quilos e conquistou a medalha de bronze. O resultado também representou o recorde das Américas na categoria naquele momento, segundo o Comitê Paralímpico Brasileiro.
O pódio colocou o Amazonas entre os estados brasileiros com representantes medalhistas nos Jogos Paralímpicos de 2024. A conquista também ampliou a visibilidade do halterofilismo paralímpico e de atletas que, muitas vezes, começam a carreira longe dos grandes centros esportivos do país.
O resultado não foi isolado. Em julho de 2025, durante o Meeting Paralímpico realizado em Manaus, Maria de Fátima levantou 134 quilos e estabeleceu novo recorde brasileiro na categoria até 67 quilos. A competição reuniu atletas de atletismo e halterofilismo na Vila Olímpica.
Uma delegação que chegou a Paris
Nas Paralimpíadas de Paris, o Amazonas teve três representantes no paradesporto: Laiana Rodrigues, no vôlei sentado; Elielton Lira, no judô; e Maria de Fátima, no halterofilismo.
Laiana participou de sua terceira edição dos Jogos Paralímpicos com a seleção brasileira. Elielton Lira estreou na competição e ficou a uma vitória da disputa pela medalha de bronze, de acordo com o balanço divulgado após os Jogos. Maria de Fátima foi a responsável pelo pódio amazonense.
A presença de três atletas em Paris refletiu o avanço da participação do estado no alto rendimento, mas também revelou a concentração da estrutura esportiva em poucas modalidades e, principalmente, na capital. Para muitos atletas do interior, a distância até Manaus, os custos de deslocamento e a falta de equipamentos especializados são obstáculos adicionais.
As categorias de base e as Paralimpíadas Escolares
O desenvolvimento do paradesporto depende da formação de novos atletas. Nesse processo, as Paralimpíadas Escolares têm papel central por reunir estudantes de diferentes estados e oferecer contato com modalidades adaptadas, regras de competição e avaliação técnica.
Uma pesquisa da Universidade Federal do Amazonas sobre a participação do estado nas Paralimpíadas Escolares identificou presença amazonense em todas as edições analisadas entre 2009 e 2019. O estudo apontou que a maior delegação do período foi registrada em 2019, com 48 integrantes.
Em 2024, a delegação amazonense participou de seis das 13 modalidades da competição e voltou para casa com 37 medalhas. Entre os destaques esteve o estudante Marcos Fabiano, que conquistou três ouros no atletismo, nas provas de 400 metros, 800 metros e 1.500 metros.
O desempenho nas categorias escolares tem importância que vai além do quadro de medalhas. A participação permite que crianças e adolescentes conheçam modalidades esportivas, convivam com outros competidores com deficiência e desenvolvam autonomia. Também ajuda famílias e escolas a enxergar o esporte como uma possibilidade de formação, e não apenas como atividade recreativa.
O Festival Paralímpico, realizado em parceria entre o Comitê Paralímpico Brasileiro, instituições de ensino e órgãos públicos, cumpre função semelhante. A proposta é apresentar modalidades como atletismo, natação, halterofilismo, bocha, vôlei sentado e outras práticas a crianças com e sem deficiência.
Modalidades e espaços de treinamento
O paradesporto amazonense reúne modalidades individuais e coletivas. O atletismo aparece entre as atividades com maior presença em competições escolares e nacionais. O halterofilismo ganhou projeção com Maria de Fátima. O vôlei sentado tornou-se conhecido pela trajetória de Laiana, enquanto o judô, o tênis de mesa, o parabadminton e a bocha também fazem parte do processo de formação.
Em Manaus, a Vila Olímpica é um dos espaços utilizados para treinamentos e competições. A capital também recebeu etapas de eventos nacionais, como o Meeting Paralímpico, que servem para medir o desempenho dos atletas, permitir a obtenção de marcas e aproximar competidores de diferentes regiões.
Além da estrutura física, o alto rendimento exige equipe multidisciplinar. Preparação técnica, acompanhamento médico, fisioterapia, nutrição, transporte e recursos para participação em torneios são fatores que influenciam a continuidade da carreira. No caso do paradesporto, a adaptação de equipamentos e a classificação funcional também fazem parte da rotina competitiva.
Desafios para manter a trajetória
Os resultados obtidos pelos atletas do Amazonas contrastam com dificuldades que ainda afetam a expansão do paradesporto. A distância geográfica em relação aos principais centros de treinamento do país torna viagens e intercâmbios mais caros. Em algumas modalidades, a oferta de treinadores especializados e equipamentos adequados continua limitada.
Outro desafio é garantir a transição entre a escola e o alto rendimento. Nem todos os estudantes que se destacam nas competições escolares conseguem manter os treinos após a conclusão da educação básica. A falta de apoio financeiro, a necessidade de conciliar esporte e trabalho e a ausência de oportunidades regulares podem interromper carreiras promissoras.
O fortalecimento de programas de bolsas, a realização de competições no estado e o apoio de clubes, universidades e associações são medidas que ajudam a reduzir esse intervalo. A presença de atletas experientes como Laiana e Maria de Fátima também contribui para inspirar novos praticantes e criar referências locais.
Mais do que medalhas
As histórias do paradesporto no Amazonas não se resumem aos pódios. Elas revelam como a prática esportiva pode reorganizar projetos de vida, ampliar a autonomia e criar oportunidades de convivência e trabalho. Ao mesmo tempo, os resultados deixam claro que a chamada superação individual não substitui políticas permanentes de acesso e treinamento.
O caminho percorrido por Laiana Rodrigues começou em uma escola de Manaus e chegou à seleção brasileira. O de Maria de Fátima saiu de Tefé, passou por competições internacionais e terminou com uma medalha em Paris. Entre essas duas trajetórias estão professores, famílias, treinadores, associações e instituições que sustentam a participação dos atletas.
Com a expansão das competições escolares e a realização de eventos nacionais em Manaus, o Amazonas mantém uma base capaz de produzir novos talentos. O desafio para os próximos anos será transformar conquistas individuais em uma estrutura contínua, capaz de atender atletas em diferentes regiões do estado e em todas as etapas da carreira esportiva.
Fontes: Comitê Paralímpico Brasileiro, Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar, Universidade Federal do Amazonas e Ministério do Esporte.