Quando se fala em esporte no Amazonas, futebol, futsal, vôlei, atletismo e jiu-jítsu costumam ocupar o centro das atenções. O estado, porém, também reúne modalidades menos conhecidas do grande público e que aparecem em competições escolares, eventos comunitários, projetos de educação física e jogos interculturais indígenas.
Entre elas estão provas como zarabatana, peconha, arremesso de lança, corrida com tora, arco e flecha e canoagem tradicional. Em Manaus, o slackline também foi incorporado a atividades escolares e apresentado a centenas de estudantes. São práticas com características diferentes, mas que têm em comum a relação com o território, a cultura, o equilíbrio, a força e a coordenação motora.
Não existe, no entanto, um levantamento único que permita medir quantos praticantes cada modalidade possui no Amazonas. Os registros públicos consultados mostram a realização de eventos e projetos específicos, mas não formam um ranking de popularidade nem indicam que todas essas atividades tenham circuitos permanentes no estado.
Jogos indígenas aproximam esporte e cultura
Uma das principais vitrines para modalidades pouco conhecidas no Amazonas são os Jogos Interculturais Indígenas realizados em Manaus e em municípios do interior. As competições reúnem atividades esportivas convencionais e provas relacionadas aos modos de vida, às técnicas e às tradições de diferentes povos.
Em uma edição dos Jogos Interculturais Indígenas de Manaus, realizada em 2013, foram registradas disputas de mergulho, canoagem, peconha, zarabatana, arco e flecha, arremesso de lança, cabo de guerra, corrida, natação, futebol e voleibol. O evento ocorreu na Comunidade do Livramento e reuniu participantes de diferentes etnias, segundo a Prefeitura de Manaus.
Em 2016, outra edição dos jogos reuniu mais de 1,5 mil atletas indígenas em 40 modalidades. A programação combinou provas tradicionais com esportes conhecidos no sistema competitivo brasileiro. A proposta, conforme a administração municipal, era promover integração, participação comunitária e valorização cultural.
Esse formato ajuda a explicar por que algumas práticas não devem ser analisadas apenas pelos critérios dos esportes olímpicos. Em determinados eventos, o objetivo não é somente estabelecer marcas ou formar atletas de alto rendimento. A competição também pode servir para transmitir conhecimentos, fortalecer vínculos entre comunidades e manter vivas técnicas aprendidas entre gerações.
Zarabatana exige precisão e controle
A zarabatana é uma das provas mais associadas aos jogos indígenas do Amazonas. A atividade consiste em lançar pequenos dardos por meio de um tubo, buscando atingir um alvo. Em registros divulgados pela Prefeitura de Manaus, a disputa aparece com alvos posicionados a determinada distância e com contagem de acertos.
O desempenho depende de concentração, controle da respiração, estabilidade do corpo e precisão. A prática também tem relação histórica com técnicas de caça utilizadas por povos indígenas, embora a competição esportiva tenha regras próprias e seja organizada de acordo com cada evento.
Em 2015, os Jogos Culturais da aldeia Gavião, em Manaus, incluíram a zarabatana entre as atividades programadas. A lista também apresentava arco e flecha, prova do caçador, corrida em trilha e futebol aquático. Como ocorre em outras competições comunitárias, as regras podem variar e não necessariamente seguem um regulamento esportivo nacional padronizado.
Por envolver instrumentos que podem causar ferimentos, a atividade exige orientação, espaço adequado, controle de acesso e supervisão de pessoas capacitadas. A prática em ambientes improvisados não é recomendada.
Peconha transforma técnica de escalada em prova
A peconha é uma técnica utilizada para subir em árvores, especialmente em atividades relacionadas à coleta de frutos e outros recursos vegetais. Nos jogos indígenas, ela pode ser adaptada como prova de velocidade: vence quem consegue subir e descer em menor tempo, de acordo com as regras definidas pela organização.
A modalidade exige força nas pernas e nos braços, equilíbrio, coordenação e conhecimento do movimento de subida. Também depende da escolha da árvore, da preparação do equipamento e das condições do local. Por isso, uma competição segura precisa considerar altura, resistência do tronco, área de queda e presença de equipe de apoio.
Registros da Prefeitura de Manaus mostram que a peconha esteve presente em Jogos Interculturais Indígenas e em competições escolares de comunidades do Rio Cuieiras. Em 2013, a modalidade foi disputada ao lado de arco e flecha, arremesso de lança, travessia de igarapé e canoagem.
Apesar de ser tratada como esporte em eventos específicos, a peconha não se resume a uma prova de velocidade. Para muitas comunidades, ela está ligada ao conhecimento do ambiente e a atividades cotidianas. A transformação dessa técnica em competição exige cuidado para não retirar seu significado cultural nem reduzir a prática a uma atração exótica.
Arco e flecha e arremesso de lança
O arco e flecha aparece com frequência em jogos indígenas realizados no Amazonas. A prova pode envolver tiro ao alvo e avaliação de precisão. Em 2013, uma edição dos Jogos Indígenas no Rio Cuieiras chamou a atenção de observadores que buscavam identificar jovens com potencial para a transição do arco nativo para o arco olímpico.
Essa diferença é importante. O arco utilizado em práticas tradicionais não é necessariamente igual ao equipamento usado em competições oficiais de tiro com arco. Materiais, formato, técnica, distância e regras podem mudar conforme a comunidade e o tipo de evento.
O arremesso de lança segue lógica semelhante. Nos Jogos Interculturais Indígenas de Manaus, a prova foi descrita como uma disputa de distância. Em determinada edição, os instrumentos não eram padronizados, permitindo que cada etnia utilizasse o material considerado adequado. Isso diferencia a atividade de modalidades regulamentadas por federações esportivas, nas quais peso, dimensões e equipamentos costumam obedecer a padrões definidos.
As duas práticas trabalham força, coordenação e precisão, mas também carregam elementos históricos e simbólicos. Por essa razão, a organização de competições deve considerar a participação das próprias comunidades na definição das regras e na apresentação das atividades.
Canoagem tradicional acompanha a realidade amazônica
A canoagem está presente tanto em competições esportivas convencionais quanto em jogos indígenas e comunitários. No Amazonas, a modalidade ganha características próprias por causa da presença dos rios e da importância da canoa para o deslocamento em muitas regiões.
Nos Jogos Interculturais Indígenas, a canoagem é apresentada como uma prova tradicional. A atividade pode envolver velocidade, travessia ou percurso definido pela organização. O tipo de embarcação, o número de participantes e o ambiente da disputa variam conforme o evento.
A canoagem exige resistência física, sincronia, domínio do remo e leitura das condições da água. Em áreas de rios, lagos e igarapés, também são indispensáveis equipamentos de segurança, acompanhamento de responsáveis e conhecimento sobre correnteza, profundidade e mudanças climáticas.
O fato de a canoa ser um meio de transporte cotidiano em diversas comunidades ajuda a explicar a presença da modalidade em eventos esportivos. A competição, nesse caso, aproveita uma habilidade ligada à vida no território e a reorganiza em um formato de disputa.
Corrida com tora e provas de força
A corrida com tora também aparece em programações de jogos indígenas realizados no Amazonas. A prova envolve o transporte de um tronco por integrantes de uma equipe ou por participantes em revezamento, conforme as regras estabelecidas para cada competição.
Em Manaus, a Prefeitura registrou a presença da corrida de tronco em uma edição dos Jogos Interculturais Indígenas de 2017. No município de Manaquiri, os Jogos Escolares dos Povos Indígenas de 2024 incluíram corrida com tora, arco e flecha, zarabatana, cabo de força e arremesso de ouriço.
Além da potência física, a modalidade depende da estratégia coletiva e da capacidade de distribuir o esforço. O cabo de força segue princípio semelhante, com equipes tentando deslocar o grupo adversário a partir de força e coordenação.
Essas provas mostram que os jogos indígenas não formam um conjunto fixo e igual em todas as localidades. Cada comunidade pode organizar o evento de acordo com suas tradições, seus materiais, seu espaço disponível e a participação de crianças, jovens e adultos.
Slackline chega às escolas de Manaus
Entre as modalidades de origem não indígena que ainda têm pouca visibilidade no Amazonas está o slackline. A prática consiste em caminhar, manter o equilíbrio e executar movimentos sobre uma fita tensionada entre dois pontos.
Em projeto desenvolvido em 2022 na Escola Municipal Divino Pimenta Faleiros, na zona leste de Manaus, mais de 200 estudantes do 6º ao 9º ano tiveram contato com o slackline. A iniciativa foi divulgada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas como parte de uma ação de educação física escolar.
O slackline pode contribuir para o desenvolvimento do equilíbrio, da concentração, da consciência corporal e da coordenação motora. A atividade, porém, precisa ser montada com equipamentos apropriados, altura controlada, proteção contra quedas e acompanhamento de profissionais.
A experiência escolar indica que modalidades pouco conhecidas podem alcançar novos praticantes quando entram em projetos de educação física. Escolas, praças e programas comunitários funcionam como portas de entrada para atividades que não costumam ter a mesma exposição de futebol e vôlei.
Desafios para ampliar a visibilidade
A existência de eventos não significa que todas as modalidades tenham estrutura permanente, calendário regular ou financiamento contínuo. Os registros públicos consultados são, em grande parte, relacionados a edições específicas de jogos, projetos escolares e ações comunitárias.
Também há diferenças entre uma prática tradicional e um esporte institucionalizado. Enquanto modalidades federadas tendem a contar com regras uniformes, árbitros, rankings e competições regulares, provas indígenas podem priorizar celebração, integração e transmissão cultural. A comparação direta entre os dois modelos pode distorcer o papel de cada atividade.
Para ampliar a participação, especialistas e gestores costumam apontar a necessidade de espaços adequados, formação profissional, equipamentos, transporte e continuidade dos projetos. No caso das práticas indígenas, o respeito à autonomia das comunidades e à diversidade entre os povos é igualmente essencial.
As modalidades esportivas pouco conhecidas no Amazonas revelam, portanto, uma paisagem esportiva mais ampla do que aquela mostrada pelas competições de maior audiência. Zarabatana, peconha, arco e flecha, arremesso de lança, canoagem tradicional, corrida com tora e slackline representam experiências distintas, mas todas ajudam a explicar como esporte, escola, território e cultura se encontram no estado.
Fontes consultadas: Prefeitura de Manaus, Jogos Interculturais Indígenas, edição de 2017 dos jogos, Fapeam e Prefeitura de Manaquiri.