domingo, 27 de setembro de 2026
MANCHETES

Conheça iniciativas que valorizam os saberes das comunidades tradicionais no Amazonas

Iniciativas no Amazonas apoiam a transmissão de conhecimentos tradicionais, o artesanato, a produção sustentável, a gestão territorial e a valorização de línguas e culturas indígenas. Veja como funcionam e onde acompanhar oportunidades.

Os saberes das comunidades tradicionais no Amazonas estão presentes em práticas como o manejo da floresta, a produção de alimentos, o artesanato, a pesca, o uso de plantas, as línguas indígenas, os rituais e as formas coletivas de organização. Para preservar esse patrimônio, diferentes instituições mantêm projetos voltados à pesquisa, à transmissão de conhecimentos, à geração de renda e ao fortalecimento da autonomia comunitária.

As iniciativas reúnem órgãos públicos, organizações indígenas, universidades, institutos de pesquisa, fundações e associações locais. Algumas ações são permanentes ou estão em andamento; outras foram realizadas em ciclos específicos, por meio de editais e projetos de documentação cultural.

Esta é uma visão geral das principais frentes de atuação e dos caminhos para acompanhar oportunidades. As informações sobre editais, prazos e critérios podem mudar. Por isso, é importante consultar sempre os canais oficiais antes de enviar uma proposta ou participar de uma atividade.

O que são os saberes das comunidades tradicionais

Os saberes tradicionais são conhecimentos construídos e transmitidos pelas próprias comunidades ao longo de gerações. Eles estão relacionados ao território, à memória, à cultura, à alimentação, à saúde, à espiritualidade e ao uso sustentável dos recursos naturais.

No Amazonas, esses conhecimentos podem envolver a identificação de espécies, o preparo da mandioca, a construção de canoas e casas, a produção de cerâmica e cestaria, o manejo de sementes, a organização de roçados, a pesca e o extrativismo. Também incluem línguas, narrativas, músicas, danças, festas, grafismos e formas de ensinar crianças e jovens.

A valorização não significa apenas registrar essas práticas. As iniciativas mais completas procuram garantir que os próprios povos e comunidades participem das decisões, definam o que pode ser divulgado e tenham benefícios culturais, sociais e econômicos a partir dos projetos.

Patrimônio imaterial reconhecido no Amazonas

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desenvolve ações de pesquisa, reconhecimento e salvaguarda do patrimônio cultural imaterial no estado. Entre os bens reconhecidos estão a Cachoeira de Iauaretê, lugar sagrado dos povos indígenas dos rios Uaupés e Papuri, e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro.

O Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro envolve conhecimentos sobre roças, plantas, utensílios, processamento de alimentos e organização do trabalho. A referência abrange municípios como São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.

O Iphan também realizou inventários de referências culturais dos povos indígenas do Alto Rio Negro, de manifestações ribeirinhas e de festas religiosas. Entre os exemplos estão a Dança do Gambá, as danças de pássaros e outras expressões culturais identificadas em municípios do interior do Amazonas.

Outro trabalho em andamento é o inventário do Complexo Cultural dos Bois-Bumbás no Médio Amazonas, em Parintins. O objetivo de inventários como esse é identificar práticas, lugares, objetos, celebrações e conhecimentos considerados importantes pelas comunidades.

Para acompanhar ações de patrimônio cultural, publicações e editais, o caminho mais seguro é consultar a página da Superintendência do Iphan no Amazonas.

Projetos de documentação e transmissão de conhecimentos

O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial já apoiou projetos relacionados a comunidades do Amazonas. Entre eles está a iniciativa Artesanato e Identidade Cultural no Médio Solimões, voltada à valorização de técnicas e conhecimentos utilizados por artesãos das reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã.

O projeto envolveu comunidades ribeirinhas, pesquisa etnográfica e registro de peças produzidas para comercialização. Também promoveu atividades sobre o artesanato como expressão de identidade cultural, aproximando artesãos e instituições locais.

Outras ações apoiadas pelo programa trataram dos sistemas agrícolas do Rio Negro, dos saberes das populações tradicionais do Médio Juruá e da documentação linguística e cultural do povo Tuyuka. Esses registros ajudam a preservar informações que muitas vezes são transmitidas oralmente e dependem da participação de anciãos, mestres, professores e jovens.

É importante observar que a documentação deve respeitar os direitos das comunidades. O registro de uma prática, língua ou conhecimento não autoriza automaticamente o uso comercial ou a divulgação de informações consideradas restritas pelo próprio povo.

Fortalecimento da língua e da cultura Kokama

Na região do Alto Solimões, uma iniciativa de destaque é o Ninho de Língua e Saberes Ancestrais, voltado ao fortalecimento da língua e da cultura do povo Kokama. A proposta aproxima crianças, mães, avós, professores e demais integrantes da comunidade em atividades de transmissão cultural.

O espaço está relacionado ao Centro de Ciências e Saberes Tradicionais Kokama Lua Verde, em Santo Antônio do Içá. O local é utilizado para encontros, cursos, formação, ações de saúde e produção de roupas, bolsas, colares e outros itens associados à cultura Kokama.

A iniciativa mostra como a valorização dos saberes pode combinar educação, memória, identidade e geração de renda. A participação de falantes mais velhos e de professores indígenas é essencial para que a língua seja ensinada no cotidiano, e não apenas registrada em documentos.

Informações sobre a experiência foram divulgadas pelo Ministério dos Povos Indígenas.

Sociobioeconomia e produção sustentável

Outra frente importante é o apoio a atividades que geram renda sem separar a economia da proteção do território. No Amazonas, projetos de sociobioeconomia podem envolver artesanato, produtos da floresta, turismo de base comunitária, beneficiamento de alimentos, cadeias da sociobiodiversidade e formação de lideranças.

O projeto Prospera na Floresta, realizado pela Fundação Amazônia Sustentável com apoio do Fundo Amazônia, atua em áreas protegidas do Amazonas. A iniciativa busca fomentar atividades produtivas sustentáveis, turismo de base comunitária e empreendedorismo entre comunidades tradicionais, povos indígenas e quilombolas.

O projeto também prevê organização comunitária, qualificação técnica, melhoria das condições de produção, beneficiamento e acesso a mercados. A proposta é apoiar soluções construídas a partir da realidade de cada território, valorizando conhecimentos locais e formas comunitárias de gestão.

Os interessados podem acompanhar objetivos, ações e atualizações na página do Prospera na Floresta e na área de projetos da Fundação Amazônia Sustentável.

Editais para organizações indígenas

Em 2026, a Fundação Amazônia Sustentável publicou o edital Soluções que Vêm do Território, destinado à seleção de projetos de sociobioeconomia indígena em Terras Indígenas do Amazonas.

Segundo as informações divulgadas pela instituição, o edital prevê até cinco projetos, com valor máximo de R$ 250 mil por proposta e prazo de execução de 12 meses. Podem participar organizações indígenas formalizadas, como associações e cooperativas, além de coletivos não formalizados que apresentem carta de apoio de uma organização indígena legalmente constituída.

As propostas podem incluir equipamentos, materiais, melhorias em espaços coletivos, capacitações, assistência técnica, logística, armazenamento, embalagens e ações de comercialização. O edital também destaca a ampliação do protagonismo de mulheres e jovens indígenas.

O período de inscrições informado na página oficial vai de 24 de agosto a 28 de setembro de 2026. Como o cronograma pode sofrer alterações, os interessados devem conferir o edital, as erratas e os documentos exigidos diretamente na página da chamada.

A inscrição é feita conforme as orientações da Fundação Amazônia Sustentável, com envio dos anexos previstos no edital. A organização interessada deve ler todos os critérios antes de preparar a proposta, especialmente as regras de elegibilidade, documentação e atuação territorial.

Atuação da Fundação Estadual dos Povos Indígenas

A Fundação Estadual dos Povos Indígenas do Amazonas, conhecida como Fepiam, atua como órgão estadual voltado às políticas para os povos indígenas. Entre as frentes divulgadas pela instituição estão ações de etnodesenvolvimento, fortalecimento do artesanato, apoio à economia indígena e valorização das comunidades tradicionais.

Em balanço divulgado pela própria fundação, as ações de etnodesenvolvimento movimentaram mais de R$ 1,3 milhão na economia indígena entre fevereiro de 2024 e março de 2025. O foco informado foi o artesanato indígena e a valorização das comunidades tradicionais do estado.

Para obter informações sobre programas, editais, atendimento e possíveis parcerias, organizações e lideranças podem acompanhar o site da Fepiam. A página informa atendimento das 8h às 14h, em Manaus, além de telefone e endereço eletrônico institucionais. Antes de se deslocar ou enviar documentos, é recomendável confirmar os dados atualizados no portal.

Como comunidades e interessados podem acompanhar oportunidades

O primeiro passo é identificar qual tipo de iniciativa atende à necessidade da comunidade. Projetos de documentação cultural podem se aproximar do Iphan; ações de etnodesenvolvimento e artesanato podem ser encaminhadas à Fepiam; e propostas de sociobioeconomia podem se enquadrar em editais de fundações, fundos ou organizações parceiras.

Em geral, os editais solicitam uma descrição do problema, objetivos, plano de trabalho, orçamento, cronograma, documentos da organização e comprovação de atuação no território. Coletivos sem CNPJ podem depender de uma entidade parceira ou de uma carta de apoio, conforme as regras de cada chamada.

Também é importante reunir previamente informações básicas da comunidade, como público beneficiário, local de execução, atividades previstas, responsáveis, formas de participação e resultados esperados. A proposta deve explicar de que maneira o projeto respeitará os conhecimentos tradicionais e garantirá a participação dos detentores desses saberes.

Quando a iniciativa envolver pesquisa, imagens, gravações, produtos ou divulgação de conhecimentos, a comunidade deve discutir previamente as autorizações e os limites de uso. O consentimento e o reconhecimento da autoria coletiva são cuidados fundamentais para evitar apropriação indevida.

Cuidados antes de participar de um projeto

  • Confira se o edital ou programa tem página oficial e regras publicadas.
  • Verifique quem pode participar, quais territórios são atendidos e quais documentos são exigidos.
  • Observe prazo de inscrição, valor disponível, duração e obrigações de prestação de contas.
  • Não envie informações sensíveis ou documentos para canais que não estejam confirmados no site da instituição.
  • Leia as regras sobre uso de imagens, divulgação de conhecimentos, propriedade intelectual e comercialização.
  • Garanta que mulheres, jovens, anciãos, mestres e demais grupos da comunidade participem da construção da proposta.

As iniciativas que valorizam os saberes das comunidades tradicionais no Amazonas têm objetivos diferentes, mas convergem em um ponto: o conhecimento deve permanecer ligado às pessoas, aos territórios e às formas de vida que o produziram. A preservação cultural, quando associada à educação, à organização comunitária e à geração de renda sustentável, contribui para fortalecer a autonomia dos povos e a proteção da floresta.