sexta-feira, 25 de setembro de 2026
MANCHETES

Comunidades ribeirinhas do Amazonas preservam tradições e adaptam rotina às mudanças climáticas

Comunidades ribeirinhas do Amazonas mantêm práticas culturais, conhecimentos sobre os rios e formas coletivas de produção mesmo diante de eventos climáticos extremos. Veja como funciona a adaptação, quais cuidados podem ser adotados e onde buscar apoio oficial.

As comunidades ribeirinhas do Amazonas mantêm práticas de pesca, agricultura, extrativismo, transporte fluvial e convivência comunitária mesmo diante de mudanças cada vez mais intensas no regime dos rios. Secas prolongadas, cheias, calor extremo e alterações no período de chuvas afetam a rotina, mas também estimulam adaptações baseadas em conhecimentos transmitidos entre gerações.

Para essas populações, o rio não é apenas uma via de transporte. Ele influencia a alimentação, a renda, o calendário de plantio, o deslocamento até escolas e unidades de saúde e a própria organização social. Por isso, qualquer alteração no nível ou na qualidade da água pode produzir efeitos em várias áreas da vida ao mesmo tempo.

O desafio é conciliar a preservação das tradições com medidas de segurança, planejamento e acesso a políticas públicas. A adaptação climática, nesse contexto, não significa abandonar costumes. Significa criar condições para que os modos de vida ribeirinhos continuem existindo com mais proteção diante de eventos extremos.

Como as mudanças climáticas afetam a vida ribeirinha

As secas severas podem reduzir a navegabilidade dos rios, dificultar a chegada de embarcações e aumentar o tempo necessário para buscar água, alimentos, medicamentos e outros produtos. Em 2023, comunidades da bacia amazônica ficaram isoladas em razão dos níveis muito baixos dos rios, com prejuízos ao acesso a água potável, comida e serviços de saúde.

O problema também alcança a produção. A redução da água disponível pode afetar a pesca, os cultivos de várzea e o extrativismo. Em períodos de calor intenso, a qualidade da água e a conservação dos alimentos exigem atenção maior. A combinação entre seca, altas temperaturas e desmatamento ainda pode aumentar riscos de incêndios e poluição do ar.

As cheias produzem impactos diferentes, mas igualmente relevantes. A subida rápida dos rios pode atingir moradias, roçados, equipamentos, criações e áreas de armazenamento. Também pode interromper aulas, deslocamentos e atividades de comercialização. Em abril de 2025, o governo federal reconheceu situação de emergência em municípios do Amazonas afetados por chuvas e cheias, enquanto comunidades ribeirinhas permaneciam em alerta.

Relatórios do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais indicam que os extremos de seca e cheia aumentam a vulnerabilidade de moradores que dependem diretamente dos rios. A instituição também destaca a importância de considerar a experiência das próprias comunidades na construção de políticas de adaptação. (educacao.cemaden.gov.br)

Tradições que ajudam na adaptação

O conhecimento ribeirinho inclui a observação do comportamento dos rios, das praias, dos igarapés, dos peixes, das chuvas e dos sinais de mudança no ambiente. Essas informações orientam decisões sobre o momento de plantar, pescar, viajar ou proteger equipamentos e alimentos.

Esse conhecimento não substitui alertas meteorológicos, monitoramento hidrológico ou orientação técnica. No entanto, pode complementar os dados oficiais, especialmente em localidades distantes dos centros urbanos. Moradores conhecem caminhos alternativos, pontos de abrigo, áreas que alagam primeiro e locais que podem ser utilizados para armazenar água ou reunir famílias.

A organização comunitária também tem papel importante. Associações, grupos de produtores, cooperativas, igrejas, escolas e lideranças locais podem ajudar a divulgar avisos, organizar transporte, identificar pessoas que precisam de atendimento prioritário e manter listas de contatos atualizadas.

Manter a memória das práticas tradicionais é outra forma de fortalecer a capacidade de resposta. Registros em cadernos, fotografias, áudios e vídeos podem documentar técnicas de cultivo, receitas, histórias, festas, cantos, formas de manejo e relatos sobre mudanças nos rios. Esse material deve ser produzido com autorização dos moradores e permanecer sob controle da comunidade.

O que a comunidade pode fazer antes de uma seca ou cheia

O primeiro passo é elaborar um diagnóstico simples dos riscos locais. A comunidade pode registrar quais áreas ficam alagadas, quais caminhos deixam de ser navegáveis durante a seca, onde há acesso a água, quais famílias vivem em pontos mais vulneráveis e quais pessoas precisam de ajuda para se deslocar.

Também é recomendável organizar um calendário comunitário com os períodos de plantio, pesca, festas, viagens, vacinação, atendimento de saúde e transporte escolar. Quando possível, esse calendário deve ser comparado com previsões climáticas e informações dos órgãos públicos.

Em caso de cheia prevista, documentos, remédios, alimentos, sementes, ferramentas e aparelhos eletrônicos devem ser protegidos em locais elevados e embalagens adequadas. Famílias também podem combinar previamente rotas de saída e pontos de encontro, sempre respeitando as orientações da Defesa Civil.

Durante a seca, o planejamento deve considerar o armazenamento seguro de água, a redução de viagens desnecessárias e a proteção de motores, barcos, redes, canoas e equipamentos usados na produção. A água destinada ao consumo precisa ser tratada conforme as orientações das autoridades de saúde. Em caso de dúvida sobre potabilidade, a recomendação é procurar a unidade de saúde ou a secretaria municipal responsável.

Como receber alertas da Defesa Civil

Moradores de comunidades ribeirinhas podem cadastrar gratuitamente um CEP para receber alertas de risco por SMS. O procedimento consiste em enviar o CEP da área de interesse para o número 40199. É possível cadastrar mais de um local, como a residência, a escola dos filhos ou a casa de familiares.

O Amazonas também informa opções de cadastro por WhatsApp. O usuário deve salvar o número (61) 2034-4611, enviar uma mensagem inicial e seguir as instruções apresentadas pelo sistema. Os alertas podem trazer informações sobre riscos e recomendações de segurança, mas não substituem a comunicação das autoridades municipais ou estaduais em situações de emergência.

O cadastro e as orientações estão disponíveis na página da Defesa Civil do Amazonas e no serviço federal de alertas de desastres. (defesacivil.am.gov.br)

Onde buscar apoio para produção e renda

Famílias que trabalham com agricultura, pesca, criação, extrativismo ou outras atividades rurais podem procurar o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas, o Idam. O órgão oferece assistência técnica e extensão rural, orientação sobre produção, organização, crédito e regularização de documentos, conforme o perfil do produtor e a disponibilidade de atendimento no município.

O Idam informa que atende agricultores familiares, pescadores artesanais, extrativistas, ribeirinhos e outros trabalhadores rurais por meio de unidades locais e postos de atendimento. A assistência pode ajudar a avaliar alternativas de produção, reduzir perdas, diversificar atividades e planejar investimentos.

O instituto também orienta sobre linhas de crédito rural oferecidas por agentes financeiros, incluindo financiamento para investimentos, custeio, equipamentos, piscicultura e pesca artesanal. O acesso depende de análise, documentação, projeto técnico e outras exigências da instituição responsável pelo crédito. Por isso, a recomendação é buscar orientação antes de contratar qualquer operação.

Informações sobre assistência técnica podem ser consultadas no site do Idam, na unidade local do município ou por meio das estruturas municipais de apoio à produção rural. (idam.am.gov.br)

Como acessar assistência social e programas públicos

O Cadastro Único é uma das principais portas de entrada para programas sociais. O cadastro é gratuito e feito presencialmente no município, geralmente em um Centro de Referência de Assistência Social, o Cras, ou em posto de cadastramento. Famílias com renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa podem ser cadastradas. Em algumas situações, famílias com renda superior também podem entrar na base quando o programa ou serviço exigir.

O sistema considera características específicas de grupos como ribeirinhos, pescadores artesanais, indígenas e quilombolas. Em áreas de difícil acesso, a assistência social pode organizar equipes móveis ou ações de busca ativa, mas a disponibilidade depende da estrutura de cada município.

Ao procurar o atendimento, é importante informar corretamente onde a família vive, quais atividades realiza e se enfrenta dificuldades de deslocamento, abastecimento, renda ou acesso a serviços. O cadastro precisa ser atualizado sempre que houver mudança relevante na composição familiar, endereço, renda ou situação de trabalho.

As orientações oficiais estão disponíveis na página do Cadastro Único. O município também pode informar o local e o calendário de atendimento do Cras. (gov.br)

Por que preservar as tradições é uma medida de proteção

As tradições ribeirinhas contribuem para a segurança alimentar, a geração de renda e a identidade das comunidades. Técnicas de manejo, conhecimento sobre espécies, formas de conservação de alimentos e sistemas de ajuda mútua podem reduzir a dependência de produtos que chegam de outras regiões, especialmente quando a navegação é interrompida.

A preservação cultural também fortalece a participação da comunidade nas decisões públicas. Quando moradores registram suas necessidades, apresentam propostas e participam de associações e conselhos, aumentam as chances de que planos municipais e estaduais considerem as condições reais do território.

O Amazonas aderiu ao projeto AdaptaCidades, iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima voltada ao apoio técnico para a construção de planos locais e regionais de adaptação. A proposta inclui informações sobre riscos climáticos, capacitação e fortalecimento da articulação entre União, estado e municípios.

Para funcionar, esse planejamento precisa incorporar a experiência das comunidades, respeitar seus modos de vida e evitar soluções que sejam definidas sem consulta local. A adaptação deve considerar moradia, transporte, saúde, educação, produção, água, energia e proteção dos conhecimentos tradicionais. (sema.am.gov.br)

Cuidados para evitar desinformação

Em períodos de seca ou cheia, mensagens sobre níveis de rios, rotas, alimentos e serviços circulam rapidamente. Antes de compartilhar uma informação, é importante verificar se ela foi divulgada pela Defesa Civil, pela prefeitura, pelo governo estadual, por órgãos de saúde ou por instituições reconhecidas.

Também é necessário desconfiar de pedidos de dinheiro, documentos ou dados bancários enviados por mensagens sem confirmação. Órgãos públicos não devem ser substituídos por intermediários desconhecidos. Em caso de dúvida, a orientação é procurar a associação comunitária, a prefeitura, o Cras, a unidade de saúde, o Idam ou a Defesa Civil.

As comunidades ribeirinhas do Amazonas enfrentam mudanças que podem alterar o calendário dos rios e dificultar atividades tradicionais. Ainda assim, seus conhecimentos, redes de solidariedade e formas de organização permanecem fundamentais. Com informação confiável, planejamento local e acesso a políticas públicas, é possível proteger vidas, reduzir perdas e manter vivas as tradições que estruturam a vida às margens dos rios.