sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Cidades

Coari: riquezas naturais e importância econômica para o Amazonas

Coari reúne uma história marcada por raízes indígenas, extrativismo vegetal e exploração de petróleo e gás natural. Com a Província Petrolífera de Urucu e o gasoduto que liga a região a Manaus, o município se tornou peça importante da economia e da matriz energética do Amazonas.

Coari ocupa uma posição estratégica no Amazonas por reunir uma extensa área de floresta, rios que estruturam a vida regional e uma das principais áreas de produção de petróleo e gás natural em terra firme do Brasil. Localizado no Médio Solimões, o município se tornou conhecido nacionalmente pela Província Petrolífera de Urucu, mas sua história econômica começou muito antes da exploração de hidrocarbonetos.

Ao longo do tempo, a economia coariense passou por diferentes ciclos. A população local esteve ligada ao extrativismo vegetal, à pesca, à agricultura, ao transporte fluvial e ao comércio regional. A descoberta e a exploração de petróleo e gás alteraram a escala das atividades produtivas, ampliaram a arrecadação pública e transformaram a relação do município com o restante do Amazonas.

O Censo 2022 registrou 70.616 habitantes em Coari. O município tem área territorial de 57.894,132 quilômetros quadrados, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que revela a dimensão de um território formado por áreas urbanas, comunidades rurais, rios, lagos e extensas áreas de floresta. (ibge.gov.br)

Formação histórica às margens do Solimões

A formação de Coari está relacionada à ocupação indígena e aos processos de colonização da Amazônia. A própria identificação cultural do município é associada à presença histórica de diferentes povos indígenas e à miscigenação que marcou a formação das comunidades do interior amazonense. A posição entre o rio Solimões e os lagos de Coari e do Mamiá ajudou a definir as rotas de circulação, abastecimento e comunicação da região. (amazonastur.am.gov.br)

Antes de se consolidar no local atual, o núcleo de povoamento passou por mudanças administrativas e territoriais. A antiga freguesia de Alvelos esteve vinculada à área de influência de Tefé. No século 19, o povoado passou por transformações que levaram à criação do município e à transferência gradual do núcleo para uma área mais próxima do rio Solimões.

Em 1º de maio de 1874, a freguesia foi elevada à categoria de vila de Coari pela Lei Provincial nº 287, com a criação do município. Décadas mais tarde, Coari foi elevada à categoria de cidade pelo Ato Estadual nº 1.665, de 2 de agosto de 1932. A trajetória administrativa ajuda a explicar a importância que o município adquiriu como ponto de articulação no Médio Solimões. (coari.net)

Dos ciclos extrativistas à diversificação econômica

Durante boa parte de sua história, Coari dependeu de atividades ligadas ao aproveitamento direto dos recursos naturais. A borracha e a castanha-do-pará tiveram papel relevante na economia regional, acompanhando ciclos que influenciaram diversos municípios do interior do Amazonas. A coleta, o transporte pelos rios e a comercialização dos produtos conectavam as comunidades locais a centros como Tefé e Manaus.

Na primeira metade do século 20, a castanha-do-pará chegou a ocupar posição de destaque na produção municipal. Registros históricos locais indicam que Coari foi um dos principais produtores do Estado em 1940, quando a atividade extrativista ainda tinha forte peso na geração de renda e na organização do trabalho. A importância da castanha diminuiu nas décadas seguintes, em meio às mudanças no mercado e à perda de dinamismo dos antigos ciclos extrativistas. (coari.net)

Mesmo com a ascensão da indústria do petróleo, outras atividades continuaram presentes. A agricultura familiar produz alimentos para o consumo local e para o abastecimento de áreas urbanas. A pesca, o comércio, os serviços, a criação de animais e o extrativismo vegetal também integram a economia do município, especialmente nas comunidades espalhadas pelo território.

Essa diversidade, no entanto, convive com uma forte concentração da economia em torno da indústria extrativa e das receitas relacionadas à exploração de petróleo e gás. O contraste entre a grande extensão territorial e a concentração das atividades de maior valor agregado é uma das características econômicas mais marcantes de Coari.

Urucu e a exploração de petróleo e gás natural

A mudança mais profunda na economia coariense começou com a exploração da região de Urucu. A instalação da Base Operacional Geólogo Pedro de Moura, em 1986, marcou o início das atividades de exploração e produção de petróleo e gás natural na área. O Polo de Urucu está localizado no município de Coari, em uma região de floresta tropical úmida e acesso predominantemente associado à logística fluvial, aérea e dutoviária. (gov.br)

O petróleo extraído em Urucu passou a abastecer parte importante do mercado da Região Norte. A produção é transportada até estruturas instaladas em Coari, de onde segue por embarcações para outras etapas da cadeia de processamento e distribuição. Essa posição transformou o município em uma base logística essencial para o escoamento da produção amazônica.

Além do petróleo, o gás natural se tornou um recurso decisivo. A produção da Bacia do Solimões passou a ser integrada ao sistema de abastecimento energético do Amazonas, reduzindo a dependência de combustíveis transportados de outras regiões e criando condições para o fornecimento de gás a usinas termelétricas e consumidores industriais.

O Ministério de Minas e Energia classifica o Polo de Urucu como a maior reserva terrestre de petróleo e gás natural do país. Em 2026, o governo federal anunciou investimentos superiores a R$ 2,8 bilhões da Petrobras e da Transpetro no Amazonas, incluindo recursos destinados à expansão da produção de gás natural em Urucu, à perfuração de novos poços e à implantação de linhas no polo. (gov.br)

O gasoduto Coari-Manaus

A construção do gasoduto Urucu-Coari-Manaus foi uma das principais obras de infraestrutura associadas à exploração energética do município. O sistema foi projetado para transportar o gás produzido na região de Urucu até Manaus, passando por áreas do interior do Amazonas e conectando a produção do Médio Solimões ao principal centro urbano e industrial do Estado.

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o projeto tem extensão total de aproximadamente 662 quilômetros. O sistema inclui o trecho entre Urucu e Coari, com cerca de 279 quilômetros, e o trecho entre Coari e Manaus, com aproximadamente 383 quilômetros. A capacidade inicial prevista foi ampliada com a instalação de estações de compressão. (gov.br)

O gasoduto entrou em operação em 2009 e passou a desempenhar papel relevante no abastecimento de Manaus. A conexão permitiu utilizar o gás natural produzido no próprio Estado para geração de energia elétrica e para outras atividades econômicas. Também reforçou a importância de Coari como ponto intermediário de processamento, armazenamento e transporte.

Do ponto de vista regional, a obra representou mais do que uma ligação entre um campo produtor e a capital. Ela criou uma infraestrutura permanente em uma área de difícil acesso, movimentou empresas de engenharia, transporte e serviços e ampliou a circulação de trabalhadores e recursos. Estudos sobre o município apontam que a construção do gasoduto contribuiu para acelerar mudanças demográficas e urbanas em Coari. (educa.fcc.org.br)

Royalties e arrecadação pública

A exploração de petróleo e gás também alterou as finanças públicas de Coari. Como município produtor e área de passagem de estruturas de transporte, a cidade recebe receitas relacionadas à exploração e à movimentação dos recursos naturais, incluindo royalties e participações governamentais conforme as regras do setor.

Dados divulgados pelo Governo do Amazonas apontam que Coari está entre os municípios que mais recebem royalties do país em razão da presença de instalações operacionais da Petrobras e da passagem do gasoduto. Em 2024, o Estado informou ter recebido mais de R$ 340 milhões em royalties provenientes da exploração de petróleo e gás. (investamazonas.am.gov.br)

Esses recursos aumentam a capacidade de investimento do poder público, mas não eliminam os desafios estruturais do município. A aplicação das receitas precisa ser acompanhada por políticas de planejamento, transparência, educação, saúde, saneamento, mobilidade e diversificação econômica. Em cidades dependentes de atividades extrativas, a oscilação da produção, dos preços e das regras de distribuição pode afetar diretamente a arrecadação.

O indicador de Produto Interno Bruto per capita de Coari foi de R$ 55.138,76 em 2023, segundo o IBGE. O número expressa a produção econômica média por habitante, mas não equivale à renda efetivamente recebida pela população nem permite, sozinho, medir a qualidade dos serviços públicos ou a distribuição da riqueza. (ibge.gov.br)

Riquezas naturais além do petróleo

Embora Urucu seja o principal símbolo econômico de Coari, as riquezas naturais do município não se resumem aos combustíveis fósseis. O território reúne rios, lagos, áreas de várzea, floresta de terra firme e uma biodiversidade associada aos ecossistemas amazônicos. O rio Solimões funciona como eixo de transporte e abastecimento, enquanto os lagos e igarapés influenciam a pesca, a agricultura e o cotidiano das comunidades.

A floresta também sustenta atividades extrativistas e oferece potencial para cadeias produtivas baseadas em produtos da sociobiodiversidade. Castanha, frutas regionais, pescado e outros produtos podem gerar renda quando associados a organização comunitária, beneficiamento, acesso a mercados e políticas de conservação. A agregação de valor é um dos caminhos para reduzir a dependência da venda de matérias-primas.

O turismo de natureza e de eventos aparece como outra possibilidade econômica. A paisagem formada pelo encontro de rios, lagos, praias fluviais e áreas de floresta pode favorecer atividades de visitação, desde que haja planejamento, infraestrutura adequada e proteção ambiental. A Amazonastur destaca Coari tanto pela produção de banana quanto pela presença de petróleo e gás natural, além de apresentar o município como destino associado à chamada “Terra do Petróleo”. (amazonastur.am.gov.br)

Desafios ambientais e sociais

A exploração de petróleo e gás em uma área de floresta exige controle ambiental permanente. Pesquisas realizadas na Província Petrolífera de Urucu registram a existência de uma matriz florestal preservada, mas também de clareiras, poços, estradas internas e estruturas vinculadas à atividade de exploração. O desafio consiste em conciliar a produção energética com a redução de impactos, a recuperação de áreas e o monitoramento da fauna, da água e da vegetação. (acta.inpa.gov.br)

Também há desafios relacionados à distribuição dos benefícios econômicos. A existência de uma grande produção de petróleo e gás não significa que todos os moradores tenham acesso automático a emprego, renda, formação profissional ou serviços públicos de qualidade. Por isso, a importância econômica de Coari deve ser analisada junto com a necessidade de investimentos duradouros em qualificação, saúde, educação, saneamento e apoio às comunidades rurais.

Outro ponto é a preparação para o futuro. Petróleo e gás são recursos finitos, e a economia baseada na extração precisa ser acompanhada por estratégias de diversificação. O fortalecimento da agricultura familiar, da pesca manejada, do turismo responsável, da bioeconomia e dos serviços pode ajudar a criar alternativas para as próximas décadas.

Importância de Coari para o Amazonas

Coari se tornou um dos municípios mais importantes do Amazonas por concentrar três dimensões estratégicas: recursos naturais, infraestrutura energética e posição logística. O petróleo e o gás de Urucu abastecem mercados regionais; o gasoduto conecta a produção do interior à capital; e os rios mantêm a integração das comunidades e o transporte de pessoas e mercadorias.

A história econômica do município revela uma transição entre diferentes formas de aproveitamento do território. Dos ciclos da borracha e da castanha ao petróleo e ao gás natural, Coari passou a ocupar um lugar central na economia amazonense. Ao mesmo tempo, suas paisagens, seus rios, sua floresta e suas comunidades continuam representando riquezas que dependem de conservação e de políticas capazes de transformar recursos naturais em desenvolvimento social.

O futuro de Coari estará ligado à capacidade de equilibrar exploração econômica, proteção ambiental e melhoria das condições de vida. A presença de petróleo e gás explica parte de sua relevância atual, mas a sustentabilidade do município dependerá de uma economia menos concentrada, de maior agregação de valor aos produtos locais e do uso responsável das receitas geradas por suas riquezas naturais.